terça-feira, 30 de outubro de 2018
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
A AUTO-VITIMIZAÇÃO DO BRASILEIRO E O RIO DE JANEIRO
Complexo de vira-lata. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nelson
Rodrigues
O
jornal O Globo deste domingo (23/09/18) mostrou que
a violência nos estados de Sergipe, Rio Grande do Norte, Amapá, Acre, Pará,
Pernambuco, Ceará, Roraima, etc é maior do que no Rio de Janeiro. Que, Sergipe, com
64,7 crimes por 100 mil habitantes está em primeiro lugar, enquanto que o RJ,
com 36,4 está em 18º lugar nas estatísticas sobre a
violência.
A média
no Brasil, que era de 29,4 em 2002 passou para 30,03 em 2016 - um pouco acima da média mundial, que é de 30 mortes por 100 mil habitantes - significando que não vem
aumentado, como querem muitos. E, se
olharmos o Brasil dentro do panorama latino-americano, veremos que na sua
frente estão Venezuela, Honduras, Guatemala e México com índices bem mais altos.
Mas, estes dados são ignorados pela população que prefere acreditar que vivemos em uma "guerra", que aqui morre mais gente do que na Síria, etc, etc. - violência é o assunto preferido dos brasileiros. Quando falei que viria para o Rio, ouvi que era loucura, que estava arriscando a receber uma bala perdida.
No entanto, o que encontrei, surpreendentemente, foi um baile em uma praça quando saia do teatro Adolfo Block à noite e seguia em direção ao metrô da Gloria.
Como evitava circular em áreas conflagradas e, no centro não dava "ares" de turista, nada vi que me deixasse preocupada, alem dos muitos moradores de rua. Percebi, isto sim, que havia um grande aumento destes.
E, o "Clima" de relativa tranquilidade que vivi estes dias só foi quebrado por um vídeo sobre a violência no RJ (!!) que recebi pelo whatsApp de uma amiga que mora no interior de SC e, que há muito tempo não vem ao RJ e toda informações que dispõe sobre a violência na cidade vem da imprensa e redes sociais.
E era de extremo mau gosto (parecia uma mensagem terrorista), confesso que fiquei só na apresentação inicial - que já me causou arrepios - e deletei-o imediatamente.
Porem, fiquei me perguntando o que há por traz deste comportamento, que gozo existe por traz desta obsessão pela violência que gera uma espécie de neurose coletiva. Não podemos esquecer que a disseminação do sentimento de medo é também uma arma política.
Mas, estes dados são ignorados pela população que prefere acreditar que vivemos em uma "guerra", que aqui morre mais gente do que na Síria, etc, etc. - violência é o assunto preferido dos brasileiros. Quando falei que viria para o Rio, ouvi que era loucura, que estava arriscando a receber uma bala perdida.
No entanto, o que encontrei, surpreendentemente, foi um baile em uma praça quando saia do teatro Adolfo Block à noite e seguia em direção ao metrô da Gloria.
Como evitava circular em áreas conflagradas e, no centro não dava "ares" de turista, nada vi que me deixasse preocupada, alem dos muitos moradores de rua. Percebi, isto sim, que havia um grande aumento destes.
E, o "Clima" de relativa tranquilidade que vivi estes dias só foi quebrado por um vídeo sobre a violência no RJ (!!) que recebi pelo whatsApp de uma amiga que mora no interior de SC e, que há muito tempo não vem ao RJ e toda informações que dispõe sobre a violência na cidade vem da imprensa e redes sociais.
E era de extremo mau gosto (parecia uma mensagem terrorista), confesso que fiquei só na apresentação inicial - que já me causou arrepios - e deletei-o imediatamente.
Porem, fiquei me perguntando o que há por traz deste comportamento, que gozo existe por traz desta obsessão pela violência que gera uma espécie de neurose coletiva. Não podemos esquecer que a disseminação do sentimento de medo é também uma arma política.
Penso, no entanto, que a violência começa no duro cotidiano da maioria da população, que depende de um transporte coletivo de péssima qualidade, de serviços públicos ineficientes, de cidades sem áreas de lazer e da falta de acesso à bens culturais (a maioria jamais entrou em um teatro
ou museu). De vidas que giram só em torno do trabalho, da casa e da família e, a relação com o resto do mundo é feita unicamente através da televisão e
das redes sociais, que exploram - a exaustão, afim de manter a audiência - o tema da violência.
Assim, existe uma violência que não é só a provocada por bandidos mas, também, de maneira subliminar, pelo próprio Estado quando este deixa de oferecer condições de vida dignas para a maioria dos seus cidadãos.
Assim, existe uma violência que não é só a provocada por bandidos mas, também, de maneira subliminar, pelo próprio Estado quando este deixa de oferecer condições de vida dignas para a maioria dos seus cidadãos.
Mas, embora os mais vulneráveis e os que mais sofrem com todo tipo de violência - a do Estado e a dos bandidos - estejam na classe pobre, quem mais se queixa dela são aqueles que estão na classe média e a alta, num processo, chamado por Freud, de
“denegação” – quando há uma inversão e aquele que esta no lado oposto se coloca no lugar da vítima.
brasileiro, ao colocar o pais como muito violento, também denigre sua imagem mundo à fora. Ouço com frequência europeus dizerem que nunca viriam ao Brasil
porque há tiroteios por toda parte. Tenho sempre que explicar que não é bem assim, que tem como tem em toda parte do mundo,
mas que não é sistêmica, que ela é pontual e basta não circular por lugares conflagrados, como
favelas, que não correrão perigo.
Estava em Lisboa, começo do ano, quando vi na TV a notícia que naquele mês eles já tinham registrados 15 assaltos à taxistas. Na volta à Florianópolis perguntei ao motorista que me levou para casa, se vinham sofrendo muitos assaltos ouvindo deste que ultimamente eram muito raros, que ocorriam com mais frequência em Palhoça, um município da Grande Florianópolis, com índice de violência maior que na ilha.
Estava em Lisboa, começo do ano, quando vi na TV a notícia que naquele mês eles já tinham registrados 15 assaltos à taxistas. Na volta à Florianópolis perguntei ao motorista que me levou para casa, se vinham sofrendo muitos assaltos ouvindo deste que ultimamente eram muito raros, que ocorriam com mais frequência em Palhoça, um município da Grande Florianópolis, com índice de violência maior que na ilha.
Ainda, em Portugal também ouvi pela TV, a presidente de um congresso das Nações Unidas para
a Saúde nos Países Lusófonos comparar a saúde pública de países como
Costa-do-Marfim e Nigéria com a do Brasil. Quando, neste países os índices de
mortalidade infantil são de 57,2 e 71,2 por 1 mil nascimentos, respectivamente.
Enquanto que no Brasil está em 14,9, portanto são realidades muito distantes.
Mas esta é a imagem que o país "vende" no exterior e hoje não dizem mais que temos cobras
nas ruas mas, sim, que morremos vítimas da violência e da pobreza.
E, é
neste clima de vitimização da população que surgem os “salvadores da pátria”
como o candidato da extrema direita que promete acabar com a violência na base
do “prendo e arrebento”. Candidato as eleições presidenciais, o “xerifão”
Bolsonaro defende um estado forte, de cunho totalitário que, certamente, levará o país a
uma nova ditadura e ao caos. Quando, então, poderemos chegar aos índices de pobreza e violência da Venezuela.
domingo, 26 de agosto de 2018
SOCILA
Socila era o nome de um curso de etiqueta para misses, nos anos 60, que depois passou a ser frequentado por patricinhas do Rio de Janeiro. Tive uma amiga carioca, patricinha, que havia feito o curso e contou-me que aprendiam desde como vestir-se à maneira correta de se expressar em ambientes formais. Na época, era visto por muitos como muito fútil, coisas da burguesa.
Também, nas escolas Inglesas as crianças aprendem não só a portar-se mas também a falar corretamente em público - o que acho fantástico. Penso que em nossas escolas públicas os alunos deveriam também ter aulas de boas maneiras. Longe de ser uma matéria irrelevante, considero uma necessidade, vide os casos de violência de alunos contra professores.
Sou do tempo da ditadura, quando tínhamos aulas de "Moral e Cívica" mas tenho que confessar que não prestava muita atenção nas aulas mas seria diferente se, ao invés de tentarem nos ensinar a amar a pátria, tivéssemos tido aulas de civilidade. Acredito que hoje seríamos uma geração mais tolerante, com menos conflitos nas redes sociais; sabendo dialogar mais e aceitar diferenças, sem partir para hostilidades.
E volto à velha Socila, para dizer que penso que nos falta um pouco de etiqueta nas relações sociais, falta gostar um pouco mais de formalidades, tão necessária para um convívio harmonioso em sociedade.
Depois de muito ouvir dizer que os franceses não eram simpáticos fui para Paris e percebi que eles, por outro lado, se ressentem da nossa informalidade. Eles gostam que se diga bon jour e au revoir quando entramos ou saímos de algum ambiente, como uma loja, um hotel ou um restaurante. E, na maioria das vezes nós nos "esquecemos" destes pormenores. Daí a "cara feia" dos franceses. Quando um simples bon jour já faria com que abrissem aquele sorriso.
Acredito que são regrinhas que nos ajudam a perceber o Outro (não o Outro da psicanálise, mas o outro que esta na minha frente), fazendo-nos sair da posição narcísica, especular que nos permitiria sentir empatia pelo diferente e nos tornar mais tolerantes e generosos com todos. Descobrindo, assim, que só com gentileza podemos viver em harmonia com todos.
Também, nas escolas Inglesas as crianças aprendem não só a portar-se mas também a falar corretamente em público - o que acho fantástico. Penso que em nossas escolas públicas os alunos deveriam também ter aulas de boas maneiras. Longe de ser uma matéria irrelevante, considero uma necessidade, vide os casos de violência de alunos contra professores.
Sou do tempo da ditadura, quando tínhamos aulas de "Moral e Cívica" mas tenho que confessar que não prestava muita atenção nas aulas mas seria diferente se, ao invés de tentarem nos ensinar a amar a pátria, tivéssemos tido aulas de civilidade. Acredito que hoje seríamos uma geração mais tolerante, com menos conflitos nas redes sociais; sabendo dialogar mais e aceitar diferenças, sem partir para hostilidades.
E volto à velha Socila, para dizer que penso que nos falta um pouco de etiqueta nas relações sociais, falta gostar um pouco mais de formalidades, tão necessária para um convívio harmonioso em sociedade.
Depois de muito ouvir dizer que os franceses não eram simpáticos fui para Paris e percebi que eles, por outro lado, se ressentem da nossa informalidade. Eles gostam que se diga bon jour e au revoir quando entramos ou saímos de algum ambiente, como uma loja, um hotel ou um restaurante. E, na maioria das vezes nós nos "esquecemos" destes pormenores. Daí a "cara feia" dos franceses. Quando um simples bon jour já faria com que abrissem aquele sorriso.
Acredito que são regrinhas que nos ajudam a perceber o Outro (não o Outro da psicanálise, mas o outro que esta na minha frente), fazendo-nos sair da posição narcísica, especular que nos permitiria sentir empatia pelo diferente e nos tornar mais tolerantes e generosos com todos. Descobrindo, assim, que só com gentileza podemos viver em harmonia com todos.
domingo, 22 de julho de 2018
QUANDO ENTRAREMOS NO SECULO XXI?
A pergunta justifica-se porque somos um país
muito atrasado - nos faltam investimentos em infraestrutura, estamos no
80º lugar em competitividade e somos uma das economias mais fechadas do mundo. No PISA estamos entre os
últimos lugares em matemática, linguagem e ciências. Também, maioria da nossa
população é monoglota, o que nos torna menos preparados para participar do
mundo globalizado.
Estamos ainda no século XX e não atingimos a modernidade, não só na economia, na educação e na política mas, o que talvez seja mais grave também a sociedade é muito conservadora. Somos contra as privatizações, mesmo quando estas empresas causam um déficit de 20 bi por ano - dinheiro que poderiam ser investido em educação e saúde. Para a maioria da população "a Petrobrás é nosso patrimônio".
Resumindo: não somente o Congresso não é reformista como a sociedade é menos ainda. Ela quer mais governabilidade e menos corrupção mas é contra as reformas que poderiam nos fazer entrar no século XXI.
Na política, continuamos dominados por velhas
oligarquias e são mínimas as chances de que ajam mudanças. Os político
costumam usar seus 4 anos de mandato para preparar a próxima eleição, aprovando
emendas que levam verbas para suas prefeituras e, assim, ganham os votos
dos eleitores.
Mudanças na composição dos poderes executivo e
Legislativo só quando alguém se aposenta e mesmo assim, deixam os filhos ou
mulher, as vezes até mesmo a ex-mulher, no seu lugar. Assim, são também mínimas as chances que este
Congresso que aí está aprove reformas que possam tirar nosso país do atraso.
Estamos ainda no século XX e não atingimos a modernidade, não só na economia, na educação e na política mas, o que talvez seja mais grave também a sociedade é muito conservadora. Somos contra as privatizações, mesmo quando estas empresas causam um déficit de 20 bi por ano - dinheiro que poderiam ser investido em educação e saúde. Para a maioria da população "a Petrobrás é nosso patrimônio".
Também, gostamos muito de privilégios - herança das
Ordenações Manuelinas, trazida por D. João VI, que diz que alguns tem mais
direitos que outros – privilégios estes que são mantidos pela força das bancadas no
Congresso.
A bancada o funcionalismo público, segundo o Estadão
têm 289 deputados ou 32 votos a mais do que a maioria absoluta (257) da Casa e,
no Executivo são 267 sindicatos e associações com quem o governo também precisa
negociar. A eficácia de atuação é maior do que a de outras bancadas mais
barulhentas e com mais repercussão em redes sociais. Seu poder de fogo foi
decisivo para enterrar não só a reforma da Previdência mas, também tem
conseguido adiar o fim dos chamados "penduricalhos", benefícios como
auxílio-moradia no judiciário. Isto mostra porque muitas reformas não
foram adiantes apesar do empenho do executivo, hoje totalmente refém do
legislativo.
Resumindo: não somente o Congresso não é reformista como a sociedade é menos ainda. Ela quer mais governabilidade e menos corrupção mas é contra as reformas que poderiam nos fazer entrar no século XXI.
MUDANDO AS REGRAS DO JOGO
Em artigo recente neste jornal falou-se da necessidade de se prestar atenção, não só no histórico dos candidatos mas, também, no dos partidos na hora de colocar o voto na urna.
No entanto, temo que escolher bons candidatos e partidos idôneos não seja o suficiente, que não basta termos bons jogadores se não mudarmos as regras do jogo. Que, enquanto não fizermos reformas estruturais o que veremos, depois de outubro será só “mais do mesmo”.
A PEC 97/17, que limitava o número de partidos, através da chamada Cláusula de Barreira e acabava com as coligações e a venda do tempo de TV pelos partidos “nanicos”, aprovada pelo Congresso nacional, foi suspensa pelo STJ.
O grande número de partidos no Congresso Nacional (atualmente são 35) obriga o Executivo a uma difícil negociação e a um “toma lá, dá cá”, como a troca de votos por cargos nas estatais que somente com o fim das indicações políticas permitirá que possamos diminuir a corrupção dentro do governo. Daí porque, só escolher bem o candidato não resolve tudo.
Mas há, também, um outro equívoco: achar que basta prender todos os corruptos e tudo estará resolvido. Não resta dúvida que todos eles devem ir para a cadeia, mas não é a corrupção a causa das mazelas do país, é só a sua consequência.
Uma das causas está, também, em nossa cultura de privilégios, que teve sua origem nas Ordenações Manuelinas, trazida com D. João VI ao Brasil. Estas atribuíam imunidades de acordo com o extrato social e, a função do judiciário era, assim como a das leis, a de defender estes privilégios.
Porem mais importante ainda será que todos possam assumir sua parcela de responsabilidade frente ao caos que denuncia, exigindo dos candidatos a deputados e senadores – Congresso e Câmaras Estaduais – o compromisso de aprovar as reformas de que o pais tanto necessita, pois se não mudarmos as regras do jogo, continuará tudo igual.
A PEC 97/17, que limitava o número de partidos, através da chamada Cláusula de Barreira e acabava com as coligações e a venda do tempo de TV pelos partidos “nanicos”, aprovada pelo Congresso nacional, foi suspensa pelo STJ.
O grande número de partidos no Congresso Nacional (atualmente são 35) obriga o Executivo a uma difícil negociação e a um “toma lá, dá cá”, como a troca de votos por cargos nas estatais que somente com o fim das indicações políticas permitirá que possamos diminuir a corrupção dentro do governo. Daí porque, só escolher bem o candidato não resolve tudo.
Mas há, também, um outro equívoco: achar que basta prender todos os corruptos e tudo estará resolvido. Não resta dúvida que todos eles devem ir para a cadeia, mas não é a corrupção a causa das mazelas do país, é só a sua consequência.
Uma das causas está, também, em nossa cultura de privilégios, que teve sua origem nas Ordenações Manuelinas, trazida com D. João VI ao Brasil. Estas atribuíam imunidades de acordo com o extrato social e, a função do judiciário era, assim como a das leis, a de defender estes privilégios.
Porem mais importante ainda será que todos possam assumir sua parcela de responsabilidade frente ao caos que denuncia, exigindo dos candidatos a deputados e senadores – Congresso e Câmaras Estaduais – o compromisso de aprovar as reformas de que o pais tanto necessita, pois se não mudarmos as regras do jogo, continuará tudo igual.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
Uma das características marcantes da sociedade brasileira
é a incapacidade de discutir, de maneira equilibrada, os nossos
problemas —e, isso, tanto nas questões pessoais quanto coletivas.
Levamos a vida a fingir que não damos importância às nossas
diferenças —"Deixa isso pra lá", "Não vamos falar sobre isso", "Bola pra
frente", "Não esquenta a cabeça", "Essas coisas acontecem" são
sentenças usadas para não enfrentarmos criticamente o passado. Com essa
atitude, nos tornamos pouco a pouco uma comunidade doente, um país
neurótico.
A
neurose é a repetição de uma determinada reação como resposta a
conflitos de naturezas diversas, exatamente porque não resolvemos o
trauma original. Em outras palavras, como nunca paramos para refletir
sobre a nossa conturbadíssima História, damos sempre a mesma resposta
quando nos sentimos acuados. Um exemplo óbvio é a ideia de que a única
solução para quando nos vimos ameaçados por uma perturbação da
normalidade, ou seja, algo que foge à nossa compreensão imediata, é o
apelo ao uso da força. Pensamos sempre em aniquilar o outro, não em
escutá-lo para tentar compartilhar um caminho comum.
A indigência em relação à formulação de um discurso que ofereça respostas claras aos anseios da população para as próximas eleições deve-se, em muito, à nossa neurose coletiva. É inegável que, logo após o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conseguiu tornar o Brasil protagonista da geopolítica mundial, com seus feitos econômicos e sociais, o Brasil sofreu um descarrilamento. A desorganização, agravada após o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, em 2015, patrocinada pelo presidente não eleito, Michel Temer, aumenta ainda mais a percepção de que somos uma carreta descontrolada descendo uma ladeira em alta velocidade. E qual a solução para isso?
Infelizmente, a solução com que boa parte da população acena, como sempre, é o autoritarismo. Foi por meio de um golpe político-militar que nasceu a República em 1889; foi por meio de um movimento armado que Getúlio Vargas pôs fim à chamada República Velha, em 1930; e foi por meio de um golpe que instaurou-se a ditadura militar em 1964. E, em todos esses momentos, o rompimento constitucional, embora liderado pela elite político-econômica, contou com o apoio ou com o silêncio da maioria da população. Contas feitas, ao longo do século XX o Brasil desfrutou de breves momentos de democracia entre largos períodos de exceção.
Por falta de acesso a uma educação de qualidade, humanista, os brasileiros possuímos um caráter eminentemente conservador; por nos faltar uma experiência duradoura com o sistema democrático, os brasileiros não nos percebemos como sujeitos da história, mas meros observadores; por convivermos com uma corrupção endêmica, que corrói todos os segmentos da sociedade, os brasileiros desconfiamos uns dos outros; por termos sido moldados pela violência –genocídio dos povos indígenas, escravidão dos africanos negros, abismo entre ricos e pobres–, os brasileiros acreditamos que somente pela violência podemos solucionar nossos conflitos. Com seu discurso reacionário, obscurantista, homofóbico, machista, racista, excludente e belicoso, o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro, vem atraindo a simpatia dos miseráveis abandonados pelo Estado e dos oportunistas que querem a manutenção de seus privilégios. Pesquisa CNT/MDA mostra Bolsonaro à frente de todos os outros candidatos –quando se exclui Lula da consulta–, com chances reais de vencer no segundo turno.
O discurso simplista e totalitário de Bolsonaro provoca uma espécie de reforço à neurose brasileira. Como não sabemos dar respostas diferentes a situações diferentes, tendemos a buscar o conforto de uma resposta conhecida, mesmo que saibamos que estamos lidando com um cenário diverso. No final do ano passado, um instituto de pesquisa concluiu que 43% dos brasileiros defendiam a volta da ditadura militar e que, entre jovens de 16 a 24 anos, esse índice crescia para 46%. Não por acaso, 60% dos eleitores potenciais de Bolsonaro têm menos de 34 anos –30% deles situa-se entre 16 e 24 anos.
A ignorância (ou seja, o desconhecimento) faz com que desejemos colocar no passado –e o passado é sempre idealizado– a solução para os problemas do presente. Mas, se confrontássemos o passado sem o véu da nostalgia, constataríamos que, ao contrário do que advogam os entusiastas do autoritarismo, o período militar não conheceu estabilidade política. A cada sucessão brigavam entre si os vários setores das Forças Armadas para fazer prevalecer seus interesses: golpe de 1969 que guindou o general Garrastazu Médici ao poder; rebelião de militares linha dura contra o general Ernesto Geisel, que autorizava pessoalmente a execução de presos políticos; pacote de Abril de 1977 que sufocou a oposição; rebelião de militares linha dura contra o general João Figueiredo.
O período militar também não foi um tempo de estabilidade econômica: a inflação média era de 20% ao ano (contra 7,5% ao ano no período democrático, não contando o governo de transição de José Sarney), e ultrapassava os 200% ao ano quando devolveram o poder aos civis. Além disso, a corrupção grassava nas mais de 500 empresas estatais existentes, que incluíam siderúrgicas, bancos, rádios, refinarias, etc. Durante o período militar, censores profissionais definiam o que era ou não era arte, o que podia ou não podia ser publicado, visto ou ouvido. Durante o período militar, qualquer um podia parar na cadeia e ser torturado ou até morto por manifestar opinião divergente. Durante o período militar estavam proibidas manifestações de rua. Os militares destruíram os sistemas de educação e saúde e ampliaram o fosso entre ricos e pobres. Mas, principalmente, os militares forjaram a ignorância da geração que defende agora, entusiasmada, a candidatura fascista de Jair Bolsonaro.
A indigência em relação à formulação de um discurso que ofereça respostas claras aos anseios da população para as próximas eleições deve-se, em muito, à nossa neurose coletiva. É inegável que, logo após o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conseguiu tornar o Brasil protagonista da geopolítica mundial, com seus feitos econômicos e sociais, o Brasil sofreu um descarrilamento. A desorganização, agravada após o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, em 2015, patrocinada pelo presidente não eleito, Michel Temer, aumenta ainda mais a percepção de que somos uma carreta descontrolada descendo uma ladeira em alta velocidade. E qual a solução para isso?
Infelizmente, a solução com que boa parte da população acena, como sempre, é o autoritarismo. Foi por meio de um golpe político-militar que nasceu a República em 1889; foi por meio de um movimento armado que Getúlio Vargas pôs fim à chamada República Velha, em 1930; e foi por meio de um golpe que instaurou-se a ditadura militar em 1964. E, em todos esses momentos, o rompimento constitucional, embora liderado pela elite político-econômica, contou com o apoio ou com o silêncio da maioria da população. Contas feitas, ao longo do século XX o Brasil desfrutou de breves momentos de democracia entre largos períodos de exceção.
Por falta de acesso a uma educação de qualidade, humanista, os brasileiros possuímos um caráter eminentemente conservador; por nos faltar uma experiência duradoura com o sistema democrático, os brasileiros não nos percebemos como sujeitos da história, mas meros observadores; por convivermos com uma corrupção endêmica, que corrói todos os segmentos da sociedade, os brasileiros desconfiamos uns dos outros; por termos sido moldados pela violência –genocídio dos povos indígenas, escravidão dos africanos negros, abismo entre ricos e pobres–, os brasileiros acreditamos que somente pela violência podemos solucionar nossos conflitos. Com seu discurso reacionário, obscurantista, homofóbico, machista, racista, excludente e belicoso, o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro, vem atraindo a simpatia dos miseráveis abandonados pelo Estado e dos oportunistas que querem a manutenção de seus privilégios. Pesquisa CNT/MDA mostra Bolsonaro à frente de todos os outros candidatos –quando se exclui Lula da consulta–, com chances reais de vencer no segundo turno.
O discurso simplista e totalitário de Bolsonaro provoca uma espécie de reforço à neurose brasileira. Como não sabemos dar respostas diferentes a situações diferentes, tendemos a buscar o conforto de uma resposta conhecida, mesmo que saibamos que estamos lidando com um cenário diverso. No final do ano passado, um instituto de pesquisa concluiu que 43% dos brasileiros defendiam a volta da ditadura militar e que, entre jovens de 16 a 24 anos, esse índice crescia para 46%. Não por acaso, 60% dos eleitores potenciais de Bolsonaro têm menos de 34 anos –30% deles situa-se entre 16 e 24 anos.
A ignorância (ou seja, o desconhecimento) faz com que desejemos colocar no passado –e o passado é sempre idealizado– a solução para os problemas do presente. Mas, se confrontássemos o passado sem o véu da nostalgia, constataríamos que, ao contrário do que advogam os entusiastas do autoritarismo, o período militar não conheceu estabilidade política. A cada sucessão brigavam entre si os vários setores das Forças Armadas para fazer prevalecer seus interesses: golpe de 1969 que guindou o general Garrastazu Médici ao poder; rebelião de militares linha dura contra o general Ernesto Geisel, que autorizava pessoalmente a execução de presos políticos; pacote de Abril de 1977 que sufocou a oposição; rebelião de militares linha dura contra o general João Figueiredo.
O período militar também não foi um tempo de estabilidade econômica: a inflação média era de 20% ao ano (contra 7,5% ao ano no período democrático, não contando o governo de transição de José Sarney), e ultrapassava os 200% ao ano quando devolveram o poder aos civis. Além disso, a corrupção grassava nas mais de 500 empresas estatais existentes, que incluíam siderúrgicas, bancos, rádios, refinarias, etc. Durante o período militar, censores profissionais definiam o que era ou não era arte, o que podia ou não podia ser publicado, visto ou ouvido. Durante o período militar, qualquer um podia parar na cadeia e ser torturado ou até morto por manifestar opinião divergente. Durante o período militar estavam proibidas manifestações de rua. Os militares destruíram os sistemas de educação e saúde e ampliaram o fosso entre ricos e pobres. Mas, principalmente, os militares forjaram a ignorância da geração que defende agora, entusiasmada, a candidatura fascista de Jair Bolsonaro.
domingo, 21 de janeiro de 2018
INDIGNAÇÃO
472
mi que estavam destinados à saúde e à educação foram parar no Fundo Eleitoral,
para o financiamento de campanhas políticas. 350,5 mi só da saúde.
Como
se nossas escolas e hospitais já não estivessem bastante sucateados; como se
pessoas não morressem nas portas dos hospitais por falta de atendimento; como
se péssimas escolas não comprometessem o futuro de nossas crianças.
Mas,
principalmente, como se tivéssemos que sustentar com dinheiro público partidos
políticos, que são entidades privadas e a decisão de quanto e para qual partido
contribuir deveria ser uma escolha do eleitor.
Quando
o Congresso aprovou o Fundo Eleitoral havia a promessa de não se tirar dinheiro
da saúde nem da educação mas, fizeram exatamente o contrário.
O
mais triste é que tal notícia passou ao largo da mídia, ocupada que estava em
falar de uma quase-ministra do trabalho envolvida em crime trabalhista e pouca
atenção se deu ao escandaloso Fundo Eleitoral.
Assim
como também foi ignorada pela maioria da população que, dividida entre uma
classe média que, não sem razão, associa política com corrupção, preferindo
manter-se à distância e, uma classe pobre que também mantem-se distante, num misto de conformismo com impotência.
Sobrando aqueles que foram para a rua pedir o impeachment da presidente, que acham que deram a sua contribuição, não percebendo que para mudar o país é necessário muito mais. É necessário um
maior engajamento e, principalmente, estar atento ao que se passa nos
“palácios” em Brasília.
Porque é preciso que se diga que, num país com 52,2 mi de pessoas abaixo da linha de pobreza,
tirar dinheiro da saúde e da educação para campanha política é, no mínimo,
crime de lesa-humanidade.
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