domingo, 6 de setembro de 2015

CONDOMINIZAÇÃO DOS SINTOMAS

"Não é por temor ao abuso que se deve proibir o uso"
Ministro Ayres Brito

Unindo teoria social e psicanálise Christian Dunker* escreve que a vida em condomínio com seus regulamentos, síndicos,  muros, câmeras, portarias - sonho de consumo da classe média brasileira, elevado a paradigma de forma de vida segura - leva a formação de sintomas, que chama de CONDOMINIZAÇÃO.

A lógica do condomínio tem por premissa excluir o que está fora de seus muros e o precedente de nossos modernos condomínios são os grandes hospitais psiquiátricos do séc. XIX. A psicanálise nos ensina a ver com suspeita tais produções sociais que acenam com uma região de extraterritorialidade protegida onde se concentraria a realização da fantasia de segurança como suplência do mal-estar que produzido pelo medo da violência.

Esta fantasia passa, nos condomínios, a ser instrumentalizada em procedimentos normativos, surgindo a compulsão legislativa, característica da gestão condominial.      
Apesar de toda tecnologia e apesar dos síndicos, dentro de um condomínio surgem eventos inesperados, formas imprevistas de encontro e desencontro, irrupções da vida como ela é. Mas tais eventos são interpretados como disfunções (sintomas) que devem ser debelados imediatamente com novas proibições, sanções e prescrições.

P.ex.: uma bicicleta largada na calçada da ensejo ao tropeço da senhora idosa, que redunda na libertação do seu cão de estimação, causando perdas irreparáveis as begônias do jardim. Solução: proíbem-se as bicicletas fora do lugar, depois as begônias e, em seguida os passeios de idosos.

O condomínio como espaço apartado do espaço público e regido por leis de exceção engendra patologias, com suas aspirações de identidade, emergindo o que Freud chamou de "narcisismo das pequenas diferenças". Diferenças essas que fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre os moradores.  E a figura do síndico, com seu regulamentos sádicos nos serve de alegoria para entender a gênese de uma patologia do reconhecimento.

Nosso déficit de felicidade nos leva ao sentimento mais ou menos invejoso de que o vizinho roubou um fragmento do nosso gozo e o mal estar é interpretado como violação de um pacto de obediência.
A autoridade do síndico não se discute, não considera exceções nem pondera casos únicos. É fria ou violenta, sem dois pesos nem meias medidas.Regras extremamente severas e punições draconianas são estabelecidas para pequenos atos infracionais, traço bizarramente identificado ao que se verifica no interior das prisões.

Violência - nome para o mal-estar social em torno do qual novas narrativas de sofrimento puderam se articular. cujos sintomas serão as formações de enclaves fortificado ou condomínios.
O Brasil pôs-inflacionário gerou um novo tipo social, o batalhador ou a nova classe trabalhadora e a antiga classe média vive momentos de insegurança crescente pelo fantasma da proletarização. Mas também pelos miseráveis - chamados de ralé - que consegue se incluir em padrões mínimos de consumo e cidadania. Sua própria existência questiona a posição daqueles que exibem signos de status.
A ascensão social sem uma história que a legitime pode ser tão suspeita ou condenável quanto a exclusão. Há, assim, uma dívida simbólica que leva a necessidade de criar novas narrativas de sofrimento e novos tipos de sintomas. E observações do tipo: "não há mais segurança para se andar nas ruas" ou "precisamos de mais câmeras no condomínio para nos proteger" denunciam a estratégia de se inverter o papel da vítima.



(*) Texto baseado na obra "Mal Estar, sofrimento e Sintoma" de Christian Ingo Lenz Dunker, 1.ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2015 (Estado de Sítio).

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