sexta-feira, 28 de agosto de 2015
POR FAVOR, ATENDAM O TELEFONE!
E todo aquele q acima país [do bem comum]
Coloca seu amigo , eu o terei por nulo
Creonte, em "Antígona", de Sófocles
Lembro daquele dia em Paris, eram três horas da madrugada e chovia torrencialmente. E eu alí na calçada naquele telefone público implorando a telefonista do Banco no Brasil, que me passasse para o gerente. "Droga de fuso horário ...e está chuva que não para pensava quando escutei do outro lado da linha: "ele está com um cliente e não pode atendê-la".
Lembro agora também do médico que não atende telefone de pacientes e da moça da agência de viagem que não pode interromper a conversa com o cliente a sua frente para atender uma ligação. Nossa "etiqueta" não permite interromper o cliente a nossa frente, por mais grave e urgente que seja o motivo da pessoa do outro lado da linha.
Mas também não posso deixar de lembrar das vezes em que, no consultório do médico, este interrompeu a consulta para atender a concessionária que ligou para avisar que seu carro novo chegou ou o corretor que sugeria uma aplicação na bolsa, ou mesmo o amigo que ligou para combinar um jantar. Aí pode passar a ligação, somente com os clientes a regra é "não se interrompe!".
Se é pode pedir licença a pessoa que está a frente deles e atender a concessionária, o corretor, etc., porque não fazer o mesmo com o paciente, se este argumenta haver uma urgência?
No meu entendimento, deve-se atender para confirmar a urgência e caso não haja dizer que retornará a ligação dali a pouco. Mas, por favor senhores, atendam o telefone!! Sejam educados com todos, não só quando for do seu interesse.
Naquele dia em Paris, tudo teria sido resolvido em segundos, embora fosse urgente. Caso contrario não estaria ali, de madrugada, na chuva, tentando falar com o banco. Mas fiquei eu ali, parada na calçada, as lágrimas escorrendo de indignação, de frio e sono.
Criamos algumas regras que acreditamos serem corretas mas que só favorecem a nós, em uma total indiferença com o outro. Simplesmente porque o outro não existe para nós. Na nossa cultura só existem nossa família e os nossos amigo e aqueles que não se encaixam nestas categorias não são nada, não existem para nós.
Lacan escreve a palavra Outro com letra maiúscula, por ser aquele que é pleno de significados. Neste caso, em contraponto, nosso outro se escreve com letra bem pequenina. Este outro - cliente ou paciente - é totalmente destituído de significados para nós.
Estava na Recepçao de uma clínica e, enquanto aguardava ser atendida, ouvia a conversa da atendente com uma senhora idosa, dizia aquela: ".....está faltando o carimbo do médico, volte outro dia" . A senhora idosa, estava vestida com simplicidade e provavelmente pegou 2 ônibus para chegar até lá mas, a atendente, que provavelmente também não tem carro e deveria saber das dificuldades de quem depende de transporte público, mostrava-se indiferente aquela pessoa a sua frente. Para a atendente, não era uma pessoa a sua frente, era "uma cliente" e só o papel importava. Eu torcia para que ela dissesse: "falta o carimbo mas, vou ver o que posso fazer pela senhora" mas vi que era esperar demais.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário