Era o ano de 1968 e fazia o Clássico no Colégio Pedro II em Blumenau. Estudava Latim, francês e começava a me interessar pela literatura graças a uma colega da escola que me levava na Biblioteca Municipal e me apresentara aos grandes autores. Começara lendo os russos: Dostoiévski, Tolstói, Maiakóvski.
Suely, era o nome da colega, que passara a andar com o "Livro Vermelho" de Mao Tse Tung embaixo do braço, também me levava para as portas das fabricas para ajudá-la a entregar panfletos de propaganda comunista. Era o ano dos movimentos estudantis por todo o país, das passeatas, dos Congressos da UNE, das prisões e do AI-5.
Suely vivia também em constante conflito com a mãe, que frequentava a igreja Batista e não aceitava que a filha andasse metida com "subversivos". Contou-me que um dia a mãe deixou a bíblia em cima de uma mesa e ela, folheando, achara a foto de um casal. Quando indagou quem eram percebeu que a mãe ficou nervosa e fugiu do assunto. Notou que o homem da foto era muito parecido com ela, reacendendo uma antiga suspeita em relação a sua paternidade. Pensou que ele poderia ser seu pai - precisava descobrir sua identidade, disse-me. Tinha Imaginado uma história de paixões inconfessáveis, traições e renúncias.
Outro dia contara que no colégio das freiras, onde fizera o ensino fundamental, havia conhecido uma noviça com quem havia tido um envolvimento amoroso. Suspeitava
que inventava as histórias mas escutava-a deixando-me, assim, entreter com o que suponha ser fruto de uma mente muito fértil.
Na mesma época conhecera também uma turma de intelectuais e boêmios, e passara a frequentar o Cine Bar, ao lado do Bush, cinema que nas segundas era cedido ao Cine-Clube Sergueï Eisensteïn, divertia-me muito com suas irreverências. Fazia, assim, meu rito de passagem para a vida adulta e para o mundo das palavras.
Percebendo que divagava, Interrompi minha narrativa e passei a folhear o "Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, do Aurélio Buarque de Holanda, que trazia nas mãos, e completei: foi nesta época que ganhei do meu pai este dicionário que me traz tantas lembranças e tornou-se um objeto de grande afeto.
NOTA: texto escrito no Curso de Escrita do Jairo Schmidt e, como ele esta fora do contexto da aula, talvez não fique muito claro os demais que lerem.
Nossa, Bia! Você conseguiu incorporar na sua própria história todo o desenrolar dos assuntos tratados na aula, além de dar uma conclusão curiosa para as histórias. Tudo isto de forma sucinta e clara! Parabéns, achei muito interessante! Abs, Aline.
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