domingo, 24 de agosto de 2014

RITO DE PASSAGEM

       Era o ano de 1968 e fazia o Clássico no Colégio Pedro II em Blumenau. Estudava Latim, francês e começava a me interessar pela literatura graças a uma colega da escola que me levava na Biblioteca Municipal e me apresentara aos grandes autores. Começara lendo os russos: Dostoiévski, Tolstói, Maiakóvski.
                Suely, era o nome da colega, que passara a andar com o "Livro Vermelho" de Mao Tse Tung embaixo do braço, também me levava para as portas das fabricas para ajudá-la a entregar panfletos de propaganda comunista. Era o ano dos movimentos estudantis por todo o país, das passeatas, dos Congressos da UNE, 
das prisões e do AI-5.
                 Suely vivia também em constante conflito com a mãe, que frequentava a igreja Batista e não aceitava que a filha andasse metida com "subversivos". Contou-me que um dia a mãe deixou a bíblia em cima de uma mesa e ela, folheando, achara a foto de um casal. Quando indagou quem eram percebeu que a mãe ficou nervosa e fugiu do assunto. Notou que o homem da foto era muito parecido com ela, reacendendo uma antiga suspeita em relação a sua paternidade. Pensou que ele poderia ser seu pai - precisava descobrir sua identidade, disse-me. Tinha Imaginado uma história de paixões inconfessáveis, traições e renúncias.
                Outro dia contara que no colégio das freiras, onde fizera o ensino fundamental, havia conhecido uma noviça com quem havia tido um envolvimento amoroso. Suspeitava
que inventava as histórias mas escutava-a deixando-me, assim, entreter com o que suponha ser fruto de uma mente muito fértil.
                 Na mesma época conhecera também uma turma de intelectuais e boêmios, e passara a frequentar o Cine Bar, ao lado do Bush, cinema que nas segundas era ced
ido ao Cine-Clube Sergueï Eisensteïn, divertia-me muito com suas irreverências. Fazia, assim, meu rito de passagem para a vida adulta e para o mundo das palavras. 
                 Percebendo que divagava, Interrompi minha narrativa e passei a folhear o "Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, do Aurélio Buarque de Holanda, que trazia nas mãos, e completei: foi nesta época que ganhei do meu pai este dicionário que me traz tantas lembranças e tornou-se um objeto de grande afeto.

NOTA: texto escrito no Curso de Escrita do Jairo Schmidt e, como  ele esta fora do  contexto da aula, talvez não fique muito claro os demais que lerem.

Um comentário:

  1. Nossa, Bia! Você conseguiu incorporar na sua própria história todo o desenrolar dos assuntos tratados na aula, além de dar uma conclusão curiosa para as histórias. Tudo isto de forma sucinta e clara! Parabéns, achei muito interessante! Abs, Aline.

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