domingo, 23 de fevereiro de 2014

O BRASILEIRO É CORDIAL?

Cordialidade, hospitalidade, generosidade – qualidades tão elogiadas por estrangeiros – representam, com efeito, um traço do caráter brasileiro mas seria engano supor que estas virtudes possam significar “Boas maneiras”, civilidade. Elas são, antes de tudo, expressão de um fundo emotivo rico e transbordante, como observa Sergio Buarque, em Raízes do Brasil.
Observem passageiros entrando em um ônibus e como eles vão se empurrando, tentando um passar na frente do outro para conseguir um lugar para sentar; o morador que faz barulho depois das dez da noite e o vizinho vai à janela e, aos berros, ameaça chamar a polícia; a criança que foi xingada pelo coleguinha de escola e o pai vai lá “tirar satisfações”.

Sergio Buarque usa o termo cordial que vem de “cuore” – coração, em latim – para dizer que o brasileiro tudo faz em nome do coração, de interesses particulares. Não existe a idéia de comunidade, o compromisso é antes de tudo com a família, o que esta na origem não só da falta de polidez como do comportamento corrupto (tudo é justificado desde que seja para beneficiar os parentes, o emprego público para o genro, o dinheiro desviado para deixar todos na família “bem”, etc.). O político, formado dentro destes valores não compreendem a distinção entre o privado e o público, dando origem ao comportamento patrimonialista.

O problema esta, portanto, na família patriarcal (ainda hoje predominante) que educa seus filhos dentro de valores estritamente doméstico, fazendo com que o brasileiro tenha aversão ao ritualismo social, goste da intimidade e esteja sempre procurando abolir as barreiras. O brasileiro gaba-se de ser caloroso, mas confunde expansividade com polidez, pois esta exige respeito a rituais e hierarquias, onde a lei geral suplanta a lei particular.




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