domingo, 23 de fevereiro de 2014

O BRASILEIRO É CORDIAL?

Cordialidade, hospitalidade, generosidade – qualidades tão elogiadas por estrangeiros – representam, com efeito, um traço do caráter brasileiro mas seria engano supor que estas virtudes possam significar “Boas maneiras”, civilidade. Elas são, antes de tudo, expressão de um fundo emotivo rico e transbordante, como observa Sergio Buarque, em Raízes do Brasil.
Observem passageiros entrando em um ônibus e como eles vão se empurrando, tentando um passar na frente do outro para conseguir um lugar para sentar; o morador que faz barulho depois das dez da noite e o vizinho vai à janela e, aos berros, ameaça chamar a polícia; a criança que foi xingada pelo coleguinha de escola e o pai vai lá “tirar satisfações”.

Sergio Buarque usa o termo cordial que vem de “cuore” – coração, em latim – para dizer que o brasileiro tudo faz em nome do coração, de interesses particulares. Não existe a idéia de comunidade, o compromisso é antes de tudo com a família, o que esta na origem não só da falta de polidez como do comportamento corrupto (tudo é justificado desde que seja para beneficiar os parentes, o emprego público para o genro, o dinheiro desviado para deixar todos na família “bem”, etc.). O político, formado dentro destes valores não compreendem a distinção entre o privado e o público, dando origem ao comportamento patrimonialista.

O problema esta, portanto, na família patriarcal (ainda hoje predominante) que educa seus filhos dentro de valores estritamente doméstico, fazendo com que o brasileiro tenha aversão ao ritualismo social, goste da intimidade e esteja sempre procurando abolir as barreiras. O brasileiro gaba-se de ser caloroso, mas confunde expansividade com polidez, pois esta exige respeito a rituais e hierarquias, onde a lei geral suplanta a lei particular.




domingo, 16 de fevereiro de 2014

SOBRE FILMES 9

A GRANDE NOITE - França, Bélgica e Alemanha, 2012. Direção: Gustave de Kerven e Benoît Delépine. Os mesmos diretores de "Mamute". Sinopse: Os irmãos Bonzini são completamente opostos: Not é um punk enquanto o irmão, Jean-Pierre é vendedor de colchões. Quando este é demitido os dois irmãos se reencontram e vão desencadear uma revolução à sua maneira. O filme ganhou o prêmio especial do júri na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes de 2012.
Filme delicioso, divertido e nada convencional, é uma sátira da situação socio-econômica da França e, por extensão, da Europa. Ao traçar o retrato de dois irmãos sem muita perspectiva de futuro, os cineastas denunciam o vazio existencial que tomou o continente, um dos reflexos da crise. 
Cena do filme 'A grande noite' (Foto: Divulgação)Cena do filme 'A grande noite' (Foto: Divulgação)

RESPONDENDO AS VOZES DA RUA

Após as manifestações de junho/2013 a presidente Dilma declarou: “cabe a todos nos, servidores, responder essas vozes”. Com todo respeito, gostaria de perguntar: nós, quem, cara-pálida? V. Exa. é a chefe e deveria dar o exemplonvestindo mais na qualidade do Serviços Público.

Quando menina escutava que existiam servidores públicos em excesso. Entretanto, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) o total de servidores no Brasil representa 15% do total de empregos, enquanto na maioria dos países é de 22% e somente o Japão tem um número menor, de 10%. Diariamente lemos no jornal que faltam fiscais nas praias, anestesistas nos hospitais públicos, policiais nas ruas e, basta entrar em uma repartição para ver em cima das mesas montanhas de papéis que demorarão meses para serem despachados. Sei que vocês vão dizer: se a turma do cafezinho e do atestado médico trabalhasse... Também escutava que funcionário público não gosta de trabalhar. Mais tarde, tendo eu mesma me tornado uma Servidora Pública verifiquei que, assim como existe a turma que faz “corpo mole”, há também muitos que “vestem a camisa”, apesar das dificuldades muitas vezes encontradas. Na sala onde atendia os pacientes não tinha ar-condicionado, mas um ventilador que precisei levar de casa. Some-se a isto tudo a falta de gestão de recursos humanos, a falta de qualificação da mão de obra e os chamados “cargos de confiança”, que nada mais são do que “cabides” de emprego.

O processo de desenvolvimento e modernização do país exige que o governo invista em melhores condições dos serviços públicos. E, caso queira responder as vozes das ruas o governo precisará investir muito em saúde, educação, segurança, etc. Uma sociedade verdadeiramente democrática é aquela em que todos têm acesso a bens de serviços de qualidade.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

SOBRE FILMES 8



A GRANDE BELEZA - filme de Paolo sorrentino, Italia, 2013. Mesmo diretor de "El Divino" e "Aqui é Meu Lugar". Sinopse: Quando o escritor Jap Gambardella faz 65 anos começa a refletir sobre a vida. Desde o gde sucesso do primeiro e único romance "O Aparelho Humano" sua vida se passa entre festas da alta sociedade, os luxos e previlégios da fama.
O filme é maravilhoso, uma fotografia belíssima. Retrata a decadência não só da elite mas também do clero e da política italiana. É uma continuação de "A Doce Vida”, de Fellini. Pena que Jap Gambardella não tenha o mesmo charme de Marcelo Mastroiano e pareça um pouco desorientado no meio mundano, embora o personagem principal seja Roma e Jap, somente seu cronista. É também felliniano nos personagens exóticos que frequentam as festas. Enquanto que, o vazio da vida em alta sociedade e a busca do prazer sem fim parecem inspirados em “A Noite” de Antonioni. Uma homenagem ao cinema italiano dos anos 60?

JOVEM E BELA - filme de François Ozon, França, 2013. Mesmo diretor de "Potiche", "O Refúgio", "Swimming Pool", "Dentro de Casa", "O Amor em 5 Tempos". Sinopse: Izabella é uma bela jovem de 17 anos que, apesar da confortável condição social e familiar divide seu tempo entra a escola e o trabalho como prostituta de luxo. Desprovida de culpa ou moral, a adolescente dissocia sexo de emoção.
Lacan fala que se deseja o que não se tem. Portanto, qdo a mãe diz: “não lhe falta nada” significa que se Izabelle tem tudo e todos os seus desejos são satisfeitos, só lhe resta desejar o que não pode, o que esta interdito. Poderia optar pela droga mas escolhe tornar-se uma prostituta e oferecer seu corpo em troca de dinheiro. A escolha é narcissica: oferece seu corpo para admiração dos homens e, impedida de gozar, se oferece para o gozo de outros. Seu prazer esta em oferecer o corpo, mas é com o dinheiro - que goza. É uma critica a sociedade de consumo? Talvez.