domingo, 27 de dezembro de 2015

BALNEARIO CAMBORIÚ - UMA CIDADE BOA PARA SE VIVER

Para o arquiteto dinamarquês Jan Gehl*, uma cidade boa para se viver é aquela que transmite uma sensação de proteção, conforto e prazer. Podemos dizer que Balneário Camboriú se encaixa dentro desta categoria porque possui ambientes públicos cheios de vida, com espaços que convidam a caminhar, assim como bons lugares para sentar, apreciar a paisagem e observar as pessoas. Também tem uma boa iluminação que transmite segurança e suas calçadas possuem rampa de acesso. Na região central, são razoavelmente largas (embora, nem sempre dentro do padrão recomendado de 5m, que é o que permite maior conforto aos pedestres).
A construção de uma ciclovia e a retirada dos carros estacionados na Avenida Atlântica desobstruiu a visão do mar e valorizou a paisagem, além de ter aumentado o uso de bicicletas e patinetes na via, merecendo aplausos. 

Por tudo isto, podemos dizer que Balneário Camboriú é uma cidade boa para se morar. É a nossa Flórida, para onde muitos sonham mudar depois da aposentadoria.
Mas, ela tem também sérios problemas como os  arranha-céus, à lá Dubai, que fazem sombra na praia à partir das 14 horas. Dubai é uma cidade feita para automóveis com alto nível de ruído, largas avenidas e grandes edifícios. Somos um balneário, uma cidade voltada para o lazer das pessoas e o respeito à escala humana significa criar bons espaços urbanos para os pedestres - a conexão entre o plano das ruas e os edifícios altos se perde depois do quinto andar. Até o quinto podemos ver e acompanhar a vida na cidade. 

Também podemos dizer que uma cidade se torna mais interessante quando há um padrão arquitetônico único para todo o conjunto dos edifícios, tornando-o harmonioso e criando uma identidade ao lugar, como é o caso de Paris, Londres, Amsterdam, Roma, Mikonos, na Grécia, Marrakesche, no Marrocos, etc. Esta identidade vai se refletir nos vínculos que vamos estabelecer com a cidade. O arquiteto Arthur Casas no seu livro Studio Arthur Casas - Works 2008-2015 diz q "(...) na maioria das cidades europeias os projetos tem um diálogo com o entorno e você não consegue fazer um projeto em Londres ou Paris ignorando o vizinho, o bairro (...) isto faz você ter vontade de ir para a cidade, por serem bonitas."

Ainda, observando a região central veremos que há um forte comércio com lojas voltadas para a rua, com  vitrines no térreo, proporcionando prazer as pessoas que caminham pela via. Porém, a quantidade de anúncios e placas com o nome das lojas provocam intensa poluição visual.

Mas, é a fiação elétrica exposta o que mais enfeia a cidade e o aterramento da fiação mudaria muito sua estética. E, embora tenha havido um esforço para melhorar os espaços público com a reforma da Avenida Central, esta ficou muito à dever na qualidade dos materiais usados e no mobiliário que não segue um padrão único para as mesas, cadeiras e guarda-sóis dos bares e restaurantes, criando uma mistura de estilos que em nada favorece o local. Também o paisagismo, quase inexistente, não valoriza em nada o espaço. 

A faixa de areia, que é usada com frequência para a pratica de atividades físicas durante o dia e a noite, tanto no verão quanto no inverno deveria espaços exclusivos para o esporte, de modo que este não interferisse no uso da praia para caminhadas, banho de mar e o descanso.Também faltam espaço para as crianças, como playground. E, na orla do mar observo que falta mais verde, mais árvores e plantas para um melhor aproveitamento do sol/sombra, calor/frescor propiciando uma maior diversidade de experiências sensoriais.   


Orla do mar em Miami, USA
Ainda, segundo J.Gehl "um bom espaço público e um bom sistema público de transporte são dois lados da mesma moeda." Mas não é o que ocorre com o nosso conhecido Bondinho. Necessitamos de investimentos em um sistema de transporte público que ofereça conforto e, principalmente, acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida e para os idosos. O ideal seria um veículo sobre trilhos que fizesse o circuito Avenida Brasil/ Avenida Atlântica, diminuindo grandemente o número de carros no centro. 

transporte coletivo Atenas, Grécia
transporte coletivo Montpellier, França

transporte coletivo Nice, França
transporte coletivo Istambul, Turquia

Transporte coletivo em N.Y., USA

Concluindo, diria que precisamos, acima de tudo, de um planejamento urbanístico amplo e de longo prazo baseado nos conceitos modernos de cidade para as  pessoas. Mas também, da parte do moradores, um olhar mais crítico para as cidades. A maioria das pessoas espera que sua casa seja acolhedora, confortável e bonita mas não exigem o mesmo da cidade como se a única função desta fosse o de possibilitar o acesso aos bens de serviço, facilitar as trocas econômicas e os deslocamentos e nos aproximar dos locais de trabalho, nada mais.

Herdamos dos portugueses o hábito de viver em torno da casa e não valorizamos a função social que tem a rua mas ela é o espaço da democracia, onde todos são iguais, onde aprendemos a conviver com as diferenças e desenvolvermos noções de cidadania.


(*) Este texto foi baseado na obra do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, cujo escritório foi encarregado da requalificação dos espaços públicos do bairro Cidade Pedra Branca em Palhoça, SC. É autor do livro "Cidade Para Pessoas", 2010, da Editora Perspectiva, SP.   

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A CULTURA DA CORRUPÇÃO

Todo mundo já ouviu: "A corrupção no Brasil não vai acabar nunca porque ela é cultural". O que é uma meia verdade, porque parte da premissa de que o que é cultural não muda. Lembro daquela mãe que diz: "ele já  nasceu assim, é o jeito dele". Como se houve um determinismo no comportamento humano: brasileiro vai ser sempre corrupto, criança que é agitada vai ser sempre agitada e assim por diante. Acima de tudo, revela um grande comodismo: "se as coisas são como são, não preciso me esforçar para mudar".

Freud, em Totem e Tabu, diz que: "a proibição ao incesto é o ato fundador da civilização". Traduzindo:  é a partir da  interdição, das leis, que a sociedade se estrutura em um sistema simbólico, que  entra na cultura. São, portanto, as leis ou o conjunto de ideias, comportamentos e práticas sociais, que determinam uma cultura.
Ocorre que no Brasil as leis são frágeis ou, usando um expressão de Lacan, são  "palavras vazias". Estamos na fase concreta do pensamento, não atingimos o estágio simbólico - que é o que me "permite" parar o carro em lugar proibido, mesmo com uma enorme placa indicando que é proibido estacionar ali. Mas se tiver um guarda no local, com um bloquinho na mão, a história será outra.
Se as Leis são " palavras vazias"  é também porque existe impunidade. Como disse Maquiavel "Aos amigos os favores, aos inimigos a lei"; que Getulio Vargas adaptou, quando disse: "para os amigos tudo, para os inimigos a lei."

A forma como encaramos as leis é também a raiz do que é chamado de "patrimonialismo". Sérgio Buarque de Holanda diz que o brasileiro tudo faz em nome de interesses particulares e o compromisso dele é antes de tudo com a família - tudo é justificado desde que seja para beneficiar os parentes, dar um emprego público para o genro, ajudar o cunhado e,  por isto, desvia dinheiro: para deixar todos na família “bem”.
O político, que é  formado dentro destes valores não compreende a distinção entre o privado e o público, dando origem, assim, ao comportamento corrupto.

Já ouvimos muito:"todos os políticos são corruptos". O que também não é totalmente verdade. Mesmo que dos 513 deputados e 81 senadores, só se salvem meia dúzia. E cito alguns que, até prova em contrário, não são corruptos: José Serra, Jarbas Vasconcelos, Miro Teixeira, Jean Wyllyans, Luíza Erundina, Cristóvão Buarque. Marina Silva (e deve ter mais gente.....assim espero) são a prova de que não também não há um determinismo na política e podemos, sim, ter políticos honestos. Para tanto, depende que votemos em candidatos que tenham um passado ético e, para isto é preciso que analisemos sua vida pregressa.
Precisamos também de uma  reforma na legislação eleitoral, com proibição do financiamento empresarial, com voto distrital, com cláusula de barreira, etc. Mas, acima de tudo, é necessário que as Leis deixem de ser meras palavras vazias.