terça-feira, 8 de setembro de 2015

O GATO SUBIU NO TELHADO

O gato subiu no telhado...e, ao que tudo indica, não demorará a cair. Para alguns, o gato/Dilma não passa de Setembro, para outros, ela resistirá até Novembro, quando o PMDB rompe oficialmente com o governo e ela perde totalmente sua base de apoio.
Torcemos por mudanças e, acho mesmo que sabemos o que queremos: menos corrupção, melhores serviços públicos, etc., mas, para isto, é necessário a união da população e das lideranças em busca de um consenso em torno de reformas. Hoje,  tudo o que vemos são os diversos  segmentos da sociedade falando sozinhos, quando seria necessário um pacto entre as lideranças políticas empresariais e jurídicas para criarmos um novo projeto para o país. Não podemos é ficar assistindo inertes o país ir para o buraco.
Começaria propondo mudar o sistema de governo. Deste sistema Presidencialista - que não é de coalizão mas, de cooptação - deveríamos passar para o sistema  Parlamentarista.
“Não aconteceria mais um cenário, como o atual, em que um governo sem maioria, acumulando derrotas no Congresso, continua governando. Em casos assim, simplesmente cai o gabinete. Se não for possível compor uma nova maioria, dissolve o Congresso e convoca novas“ Nas palavras do deputado do PPS,  Roberto Freire, que completa: "não se pode correr o risco de que alguém fique dizendo que é golpe. Vai ficar claro que só vale a partir de 2018. Mesmo que a crise se aprofunde a ponto de viabilizar o impeachment, quem viesse saberia que teria de preparar o país para o parlamentarismo.”

No Brasil, o parlamentarismo esteve em vigor no final do Império, de 1847 a 1889 e ao passar a ser república, o Brasil adotou o Presidencialismo como sistema governamental. Com a renúncia de Jânio Quadros adotamos novamente o Parlamentarismo, como uma tentativa de solucionar a crise, durante o período de setembro de 1961 a janeiro de 1963. E em 1993 houve um plebiscito mas o Parlamentarismo foi rejeitado por  55% dos eleitores. Somente 24% optaram pelo parlamentarismo.
Hoje, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), vem afirmando que pretende apresentar uma proposta de emenda à Constituição para trocar o sistema presidencialista pelo parlamentarismo. Ao mesmo tempo, um grupo que, já conta com a adesão de 216 deputados e 11 senadores pretendem desenterrar uma antiga Proposta de Emenda Constitucional do ex-deputado Eduardo Jorge (PV), apresentada em 1995. Basta que seja enviado ao plenário de a PEC (proposta de emenda à Constituição) que está pronta para ser votada há 14 anos, desde 2001 e prevê a adoção do regime parlamentarista.
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domingo, 6 de setembro de 2015

CONDOMINIZAÇÃO DOS SINTOMAS

"Não é por temor ao abuso que se deve proibir o uso"
Ministro Ayres Brito

Unindo teoria social e psicanálise Christian Dunker* escreve que a vida em condomínio com seus regulamentos, síndicos,  muros, câmeras, portarias - sonho de consumo da classe média brasileira, elevado a paradigma de forma de vida segura - leva a formação de sintomas, que chama de CONDOMINIZAÇÃO.

A lógica do condomínio tem por premissa excluir o que está fora de seus muros e o precedente de nossos modernos condomínios são os grandes hospitais psiquiátricos do séc. XIX. A psicanálise nos ensina a ver com suspeita tais produções sociais que acenam com uma região de extraterritorialidade protegida onde se concentraria a realização da fantasia de segurança como suplência do mal-estar que produzido pelo medo da violência.

Esta fantasia passa, nos condomínios, a ser instrumentalizada em procedimentos normativos, surgindo a compulsão legislativa, característica da gestão condominial.      
Apesar de toda tecnologia e apesar dos síndicos, dentro de um condomínio surgem eventos inesperados, formas imprevistas de encontro e desencontro, irrupções da vida como ela é. Mas tais eventos são interpretados como disfunções (sintomas) que devem ser debelados imediatamente com novas proibições, sanções e prescrições.

P.ex.: uma bicicleta largada na calçada da ensejo ao tropeço da senhora idosa, que redunda na libertação do seu cão de estimação, causando perdas irreparáveis as begônias do jardim. Solução: proíbem-se as bicicletas fora do lugar, depois as begônias e, em seguida os passeios de idosos.

O condomínio como espaço apartado do espaço público e regido por leis de exceção engendra patologias, com suas aspirações de identidade, emergindo o que Freud chamou de "narcisismo das pequenas diferenças". Diferenças essas que fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre os moradores.  E a figura do síndico, com seu regulamentos sádicos nos serve de alegoria para entender a gênese de uma patologia do reconhecimento.

Nosso déficit de felicidade nos leva ao sentimento mais ou menos invejoso de que o vizinho roubou um fragmento do nosso gozo e o mal estar é interpretado como violação de um pacto de obediência.
A autoridade do síndico não se discute, não considera exceções nem pondera casos únicos. É fria ou violenta, sem dois pesos nem meias medidas.Regras extremamente severas e punições draconianas são estabelecidas para pequenos atos infracionais, traço bizarramente identificado ao que se verifica no interior das prisões.

Violência - nome para o mal-estar social em torno do qual novas narrativas de sofrimento puderam se articular. cujos sintomas serão as formações de enclaves fortificado ou condomínios.
O Brasil pôs-inflacionário gerou um novo tipo social, o batalhador ou a nova classe trabalhadora e a antiga classe média vive momentos de insegurança crescente pelo fantasma da proletarização. Mas também pelos miseráveis - chamados de ralé - que consegue se incluir em padrões mínimos de consumo e cidadania. Sua própria existência questiona a posição daqueles que exibem signos de status.
A ascensão social sem uma história que a legitime pode ser tão suspeita ou condenável quanto a exclusão. Há, assim, uma dívida simbólica que leva a necessidade de criar novas narrativas de sofrimento e novos tipos de sintomas. E observações do tipo: "não há mais segurança para se andar nas ruas" ou "precisamos de mais câmeras no condomínio para nos proteger" denunciam a estratégia de se inverter o papel da vítima.



(*) Texto baseado na obra "Mal Estar, sofrimento e Sintoma" de Christian Ingo Lenz Dunker, 1.ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2015 (Estado de Sítio).