domingo, 31 de agosto de 2014

ELEIÇÕES

Com a proximidade das eleições, o que mais se ouve é que precisamos escolher bem nossos candidatos, que precisamos votar naqueles que não tem ficha suja, que são honestos. O que, sem duvida, é importante, mas não é tudo. 
O problema não esta só no candidato, mas principalmente, no nosso Sistema Político. 
E, enquanto não adotarmos o voto distrital que permite ao eleitor ficar mais próximo do seu representante; enquanto não acabarmos com os partidos de aluguel, com os suplentes de deputados e senadores; enquanto não instituirmos o financiamento público de campanha, terminando com a influência do poder econômico,  este país não vai avançar na construção de uma verdadeira democracia. 

A candidata Marina Silva se diz representante da mudança, porem tem como seu vice um político que sempre defendeu o agronegócio, seu oposto ideológico afim de compensar o que falta aquele, num típico comportamento da velha política, que diz combaterTambém acusa o PT e o PSDB de continuísmo, mas diz que vai governar com os melhores dos dois partidos - é sua resposta a acusação de que não tem equipe. 

Sua figura carismática esconde mais ambiguidades: até recentemente era contra o uso de células tronco embrionária, contra a descriminalização do aborto, contra os transgênicos, contra o casamento gay, e hoje é a favor - antes, fundamentalista e hoje libertaria - o que a torna uma incógnita, fazendo com que o sonho de mudança ainda possa se tornar um pesadelo.

Mas tudo leva a crer teremos no segundo turno Dilma e Marina, com Aécio apoiando Marina e o PSDB sendo convidado a fazer parte do governo marineiro. Mas Marina também vai precisar do PT assim como precisara de maioria no Congresso e, como na velha política, terá que negociar cargos em troca de apoio - e a dita Terceira Via nada mais será que falácia de campanha. 

Dai porque a necessidade de uma mudança estrutural das nossas instituições. Mas para que isto aconteça precisamos do Congresso, não basta que o executivo defenda a mudança política, para que isto aconteça é necessário o apoio do Legislativo. Por isto é tão importante que votemos no candidato a deputado federal e ao senado que se comprometa com a reforma.  

Sabemos, também, que os parlamentares só aceitarão fazer a Reforma Política se houver pressão da sociedade. É necessário, portanto, que nos mobilizemos e através de uma ampla campanha e de um plebiscito popular possamos convocar uma Constituinte Exclusiva da Reforma do Sistema Político.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A CULTURA DO MEDO



Moro em Floripa há mais de 15 anos e nunca fui assaltada. Em compensação, em Bruxelas, tentaram me roubar um notbook. Como leio jornal, concluo que sou uma pessoa de sorte. Ou, talvez porque me exponha menos que a maioria da população: circulo pela cidade de carro e, sempre que posso, uso os shoppings para fazer compras. Estatisticamente é muito maior o número de roubos e assaltos nas ruas de maior movimento, como a Conselheiro Mafra, ruas de comércio popular, e nos transportes coletivo, do que nos shoppings.
Ou, seja, é a classe C quem mais sofre com a violência. Também se formos olhar as estatísticas veremos que morre muito mais gente nas favelas do que fora delas, e não só pela disputa de pontos de droga entre grupos de traficantes, mas também por assalto e o chamado "conflito do cotidiano", que nada mais é que briga por motivo fútil.
Mas é a classe média e alta que mais se queixa da violência. É ela quem se diz vítima. 
O sociólogo americano Barry Glasser, em seu livro Cultura do Medo diz "estamos vivendo em tempos muito seguros, de forma geral, do que vivíamos no passado, na maioria dos lugares. (entretanto) O nível de medo do crime em uma população não se assemelha as reais taxas de crime. (...) a maioria das pessoas nunca teve experiência direta com a violência. (a causa esta em) grupos e indivíduos que promovem o medo e o panico em seu próprio beneficio. Parte da mídia extrai audiência da espetacularização da violência; políticos e grupos religiosos se apoiam no medo para acuar a população (...) com interesses diversos."
Um exemplo recente é o da dona de casa da comunidade Morrinhos, no Guarujá, que foi linchada injustamente pela comunidade onde morava depois da publicação de um retrato falado em uma página no Facebook que mostrava uma mulher que realizava rituais de magia negra com crianças sequestradas. O que me fez lembrar "As Bruxas de Salen", filme norte-americano de 1996, dirigido por Nicholas Hytner. O filme é baseado na peça de mesmo nome de Arthur Miller sobre os fatos históricos envolvendo o julgamento por bruxaria na pequena povoação de Salém, Massachusetts numa noite de outubro de 1692.
Jornais estrangeiros publicam artigos aterrorizastes sobre o Brasil. Esquecem que foi em Paris, nas suas periferias (banlieus) onde começou a onda de carros queimados como forma de protesto. Uma vez em Paris, quando manifestei que queria conhecer Belle Air, o bairro "barra pesada", me disseram que se entrasse lá não sairia viva. O que era um enorme exagero, como constatei depois. Fora alguns olhares hostis, não mais ocorreu que me deixasse apreensiva. 

É freqüente lermos que nos USA alguém invadiu uma escola e matou dezenas de crianças.  Também nos chegam notícias de alguém que encarcerou mulheres ou mesmo crianças durante anos. E não sei onde o número de pedófilo é maior mas, certamente, não menor do que no Brasil. De cada 9 adolescentes, 1 já sofreu abuso sexual. Nos USA a violência está mais ligada a problemas mentais, enquanto que no Brasil ela esta mais associada a questões econômicas.
Mas, é também o preconceito e a marginalização uma das causas da violência. São as cercas de arame, os vidros do carro levantando cada vez que uma criança pobre se aproxima, a hostilidade aos flanelinhas, comportamentos comuns à classe média e alta, gerando sentimento de exclusão e revolta. 
Embora seja ela, a classe média e alta que se diz vítima, fingindo ignorar que o perigo esta na enorme desigualdade de renda entre ricos e pobres. Que a pobreza correlaciona-se com crimes e consumo de drogas, com molestamento de crianças, etc.

domingo, 24 de agosto de 2014

RITO DE PASSAGEM

       Era o ano de 1968 e fazia o Clássico no Colégio Pedro II em Blumenau. Estudava Latim, francês e começava a me interessar pela literatura graças a uma colega da escola que me levava na Biblioteca Municipal e me apresentara aos grandes autores. Começara lendo os russos: Dostoiévski, Tolstói, Maiakóvski.
                Suely, era o nome da colega, que passara a andar com o "Livro Vermelho" de Mao Tse Tung embaixo do braço, também me levava para as portas das fabricas para ajudá-la a entregar panfletos de propaganda comunista. Era o ano dos movimentos estudantis por todo o país, das passeatas, dos Congressos da UNE, 
das prisões e do AI-5.
                 Suely vivia também em constante conflito com a mãe, que frequentava a igreja Batista e não aceitava que a filha andasse metida com "subversivos". Contou-me que um dia a mãe deixou a bíblia em cima de uma mesa e ela, folheando, achara a foto de um casal. Quando indagou quem eram percebeu que a mãe ficou nervosa e fugiu do assunto. Notou que o homem da foto era muito parecido com ela, reacendendo uma antiga suspeita em relação a sua paternidade. Pensou que ele poderia ser seu pai - precisava descobrir sua identidade, disse-me. Tinha Imaginado uma história de paixões inconfessáveis, traições e renúncias.
                Outro dia contara que no colégio das freiras, onde fizera o ensino fundamental, havia conhecido uma noviça com quem havia tido um envolvimento amoroso. Suspeitava
que inventava as histórias mas escutava-a deixando-me, assim, entreter com o que suponha ser fruto de uma mente muito fértil.
                 Na mesma época conhecera também uma turma de intelectuais e boêmios, e passara a frequentar o Cine Bar, ao lado do Bush, cinema que nas segundas era ced
ido ao Cine-Clube Sergueï Eisensteïn, divertia-me muito com suas irreverências. Fazia, assim, meu rito de passagem para a vida adulta e para o mundo das palavras. 
                 Percebendo que divagava, Interrompi minha narrativa e passei a folhear o "Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, do Aurélio Buarque de Holanda, que trazia nas mãos, e completei: foi nesta época que ganhei do meu pai este dicionário que me traz tantas lembranças e tornou-se um objeto de grande afeto.

NOTA: texto escrito no Curso de Escrita do Jairo Schmidt e, como  ele esta fora do  contexto da aula, talvez não fique muito claro os demais que lerem.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

REFORMA POLÍTICA

A Folha de São Paulo vem publicando diariamente comentários sobre o aeroporto construído nas terras da família do candidato Aécio Neves esquecendo que o também candidato Eduardo Campos nomeou a mãe para o cargo de ministra do Tribunal de Contas quando ainda era governador de Pernambuco; que Lula deu a nora e outros apadrinhados uma sinecura no SESI, com altos salários, sem que precisem ao menos comparecer para assinar o ponto; que parlamentares fazem uso de avião da FAB para fazer implante de cabelo no seu Estado. Mas, principalmente, faltou também dizer que são exemplos de uma mentalidade patrimonialista profundamente enraizada na cultura brasileira.

Com a proximidade das eleições, o que mais se ouve é que precisamos escolher bem nosso candidato, que precisamos votar somente naqueles que não tem ficha suja, que são honestos - isto sem duvida, é importante, mas não é tudo. O problema não esta só no candidato, mas também, e principalmente, no nosso Sistema Político. Enquanto não adotarmos o voto distrital e eleições proporcionais em dois turnos que permita ao eleitor ficar mais próximo do seu representante; enquanto não acabarmos com os partidos de aluguel; com os suplentes de deputados e senadores; enquanto não instituirmos o Financiamento Publico de Campanha, terminando com a influência do poder econômico, este país não mudará e continuará com sua mentalidade patrimonialista, que tanto mal tem feito à nação.

Sem uma mudança estrutural das nossas instituições o país não vai avançar na construção de uma verdadeira democracia. Mas, para que isto aconteça, é importante que votemos nos candidatos que também se comprometam com a mudança. 


Sabemos, no entanto, que os parlamentares só aceitarão fazer a Reforma Política se houver pressão da sociedade, por isto é necessário que nos mobilizemos e através de uma ampla campanha e de um plebiscito popular possamos convocar uma Constituinte Exclusiva da Reforma do Sistema Político.