segunda-feira, 14 de outubro de 2013

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

Fui a duas palestras do ciclo "Fronteiras do Pensamento": a do ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa e do psicanalista Contardo Caligaris.

A palestra do economista e hoje urbanista E. Peñalosa foi de longe a mais interessante. Descobri porque um país da America-latina, com um pib per-capita inferior ao nosso, com problemas sociais maiores ainda, consegue o que prefeitura alguma no Brasil conseguiu até hoje: uma reforma urbana nos moldes do primeiro mundo. 

Ele conta que durante sua gestão na prefeitura de Bogotá chegou a 85% de rejeição e que foi, na época, considerado o "inimigos público n.1" da Colômbia. Descontando o exagero do "inimigo público n.1", pude concluir que teve autonomia para fazer as mudanças que desejava apesar de todas as pesquisas de opinião. E que este, certamente, é o nosso problema:  aqui, o administrador público que chegar a índices tão baixos de aprovação, imediatamente convocara seu marqueteiro e tratara imediatamente de reverter a situação.

Ao se eleger Prefeito ele esta ainda no início da sua escalada rumo ao Planalto e suas ações serão sempre voltadas para esse que é seu objetivo maior - o Congresso ou mesmo o Planalto - e a administração municipal nunca será um fim em si mesmo, mas só mais um degrau para chegar ao topo.

Portanto, enquanto não houver uma Reforma Política que acabe com a reeleição para cargos executivos - penso que o cargo de prefeito deveria ser meramente administrativo e não político, mas aí já é outro "papo" - não teremos grandes mudanças, nem mesmo a reforma urbanística que a cidade tanto necessita e; enquanto o nosso sistema eleitoral permitir que o candidato dependa do famoso caixa 2 de campanha, que é abastecido com dinheiro da iniciativa privada, a administração pública continuará a ser pautada por grupos econômicos. 

Durante a campanha o candidato apresenta propostas que encantam a todos - são novas áreas de lazer, transporte de massa de primeiro mundo, teleféricos, etc. Quando eleito, inicialmente, se mostra disposto a colocá-las em prática, cria uma equipe técnica para dar início aos projetos mas não demora muito para percebermos que ele começa a ceder, a adiar, a formar comissões para discutir as reformas, reuniões, etc, etc mas nada vai para a frente porque seus projetos entram em conflitos com os interesses dos grupos econômicos. E, aos poucos, aquelas propostas maravilhosas começam a ir por "água à baixo". Percebemos, frustrados, que o interesse da população vai ficando em segundo plano. Ou em terceiro:  em primeiro esta o dele, o político, em segundo o dos grupos econômicos e só em terceiro o da cidade.

Na dia seguinte fui então assistir a palestra do psicanalista, escritor e articulista da FSP, Contardo Caligaris. O auditório estava lotado e haviam colocado cadeiras e um telão na recepção ao lado. Todo o mundo "psy" estava lá e a maioria foi para ouvir ele falar sobre os Seminários de Lacan, o Homem dos Ratos, etc., ninguém ali sabia quem era realmente Caligaris ou que ele estava ali para falar do seu último romance "A Mulher de Vermelho e Branco". E, aos poucos o pessoal foi abandonando o auditório até que a pláteia resumiu-se a metade e ele continuasse a falando sobre seu processo de criação literária.
                                                                                                                                          

                                                                                                                            Beatriz

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