Faço abaixo um resumo dos livros que me fizeram companhia durante a pandemia:
14. James Joyce. Estou, no momento terminando a leitura de Retrato de um Artista quando Jovem começada quando estava em Dublin. Antes de ir para a Irlanda li Dublinenses e lá conheci um professor, especialista em Joyce, que me convidou para participar de uma leitura de Ulisses, em portugues. Descobri que tinha mais nomes próprios e de ruas do que teria a lista telefônica, todos em inglês, claro, o que não ajudou na leitura e me levava a rir dos meus tropeços com o idioma local. Devo ser a unica pessoas que já se divertiu lendo Ulisses.
13. Bruno Paes Manso. Republica das Milicias, Dos Esquedrões da Morte à Era Bolsonaro. Mostra a estreita relação entre a família Bolsonaro e as milícias e como estas se formaram na cidade do Rio de Janeiro. Bastante esclarecedor além de bem escrito. O autor é professor da USP, cientista social e pesquisador, já tendo publicado um livro sobre o PCC.
12. Chico Buarque. Essa Gente. Considero o Chico um fantástico letrista e suas músicas são lindas. Mas não penso o mesmo do escritor e este ultimo livro só veio confirmar minha péssima opinião. Ele fala sobre uma classe média alta decadente, moradora da zona sul mas erra nos personagens muito caricaturais, dando um tom panfletario ao texto. Quanto à decadência creio que esta se adequa bem a cidade, diria até que também ao autor.
11. Baldwin, james. Em Notas de um Filho Nativo descobri um Autor apaixonante. Na 3a parte do seu ensaio, “Uma questão de identidade”, reflete sobre sua experiencia em Paris no pos-guerra Baldwin. Falar sobre o encontro com o diferente, com uma nova cultura confirmando tanta a tese existencialista de que é no meio da rua que nos encontramos bem como a lacaniana de que é o Outro que me significa,
Nesta parte do livro fala também sobre relação do negro americano e a do imigrante africano com a França e a diferença de comportamento de um e outro. Ainda sobre Paris escreve que “A inteligência desempenha um papel limitado nos assuntos humanos”, ao descrever os franceses como decadentes, sujos e pobres, o que me remeteu ao RJ, que é um pouco isto mas que tb tem uma vida cultural intensa.
É fascinante como ele vai desvelando a alma dos negros americanos e por contraposição também a dos brancos, dissecando-a sem pudor. Tenho me perguntado como será a alma dos nossos negros, com um histórico parecido qto à escravidão mas onde hoje a segregação entre brancos e negros aqui é muito maior. Não sabemos o que pensam nossos negros e o que guardam em suas almas humilhadas, oprimidas, escravizadas. Nem como nossos negros vêem os brancos. Qto aos brancos diria que eles não os vêem os negros, não como indivíduos.
10. Leonardo Padura. Em O Homem que amava os Cachorros Padura revela-se um grande contador de historia e, alem de narrar a vida emocionante do protagonista Ramon Mercader, também nos leva a conhecer a historia do exílio e morte do grande Trotsky assim como os porões da Russia stalinista. O narrador, um Cubano nos permite também conhecer um pouco sobre a Cuba de Fidel Castro. Para quem havia lido pouco sobre o comunismo, sobre Lenin, Stalin e Trotsky, foi muito interessante.
9. Sergio Abranches. No livro O Tempo dos Governantes Incidentais do cientista social e marido da jornalista Miriam Leitao, fala sobre o presidencialismo após 1988 no país e as possíveis debilidades da ordem social-democrática brasileira, assim como o retrocesso democrático promovido pelo governo Bolsonaro, procurando apontar possíveis soluções.
8. Scott Fitzgerald Embora fã do autor de O Grande Gatsby achei este As Historias de Pat Hobby bastante decepcionante. O protagonista não cria empatia, parecendo só um tipo errático.
7. Umberto Eco em O Fascismo Eterno faz uma distinção entre o nazismo e o fascismo. Diz que o nazismo é sempre um só, que é anticristão e neo-pagão, da mesma forma que Stalin era claramente materialista e ateu; ambos subordinavam qualquer ato individual ao estado e a sua ideologia eram, assim, regimes totalitários.
Enquanto que o fascismo não é uma ideologia monolítica mas an. tes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas - um alveário de contradições - e transformou-se em uma denominação para os mais diversos movimentos totalitários, podendo-se reunir igreja, exercito e milícias no mesmo pacote, como vemos no Brasil.
UE faz uma lista das características típicas daquilo que chama de Ur-facismo ou facismo eterno, que cito abaixo:
- Culto da tradição.
- Recusa da modernidade. O iluminismo e a idade da razão são vistos como o início da depravação da modernidade (vide o chanceler Ernesto Araújo e seu terraplanismo).
- Acusação à cultura moderna de abandono dos valores tradicionais. Pensar é uma forma de castração e a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. "As universidades são um ninho de comunistas"
- Negação da ciência. Na cultura moderna a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço do conhecimento. Para o fascismo o descordo é traição. Não pode, assim, existir avanço do saber.
- Medo da diferença. É portanto racista por definição.
- Apelo às classes médias frustradas, temorosas da perda dos seus previlégios por pressão do lumpesinato. É a pequena burguesia necessitando de reconhecimento social.
- Nacionalismo excerbado como busca de uma identidade. Os unicos que podem fornecer uma identidade às naçoes são os inimigos. Assim, esta na raiz do Ur-fascismo a obsessão da conspiração. Dos comunistas, para Olavo de Carvalho e seus seguidores.
- O pacifismo é conluio com o inimigo, o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.
- O eletismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacinária, enquanto fundamentalmente aristocrática e militarista que implica o desprezo pelos fracos. Os membros do partido são os melhores cidadões e a força do líder se baseia na debilidade das massas, tão fracas que tem necessidade de um "dominador". O grupo é organizados hierarquicamente segundo o modelo militar. O lider despreza seus subordinados que por sua vez despreza seus subalternos.
- Cada um é educado para ser um herói. Culto que é ligado ao culto da morte. Entre os falangistas o lema era: "!Viva la muerte!" É a recompensa por uma vida heróica.
- O fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais, que esta na origem do seu machismo (desdém pelas mulheres e uma condenação de hábitos sexuais não conformistas, da castidade à homosexualidade). Seus jogos de guerra se devem a uma invidia penis permanente.
- Para o ur-fascismo os indivíduos não tem direitos e o "povo" é concebido como uma entidade monolítica que exprime "a vontade comum" e o líder é o seu intérprete que deve opor-se aos governos parlamentares. Colocam em dúvida a legitimidade do Parlamento, dizendo que não representa o povo.
- Os textos escolares devem se basear em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. É o que UE chama de novalíngua, inventado por Orwell em 1984.
6. Niklas Natt Och Dag 1793 é um thriler passado durante a idade media sueca, uma época onde as doenças, fome, desemprego e violência imperavam. Mas confirmou que thrillers não sao minhas leituras preferidas.
5. Karl Ove Knausgård Sempre que viajo p um país novo procuro ler primeiro sobre a história do país e depois um autor atual que me permita conhecer um pouco da vida cotidiana do lugar. Na 1a vez que fui a Estocolmo li Um Outro Amor escritor da moda, Knausgård. É um livro autobiográfico onde ele relata a relação com a familia, com a mulher e os amigos mas também com a literatura. É muito intenso, passional mesmo, entrando em detalhes sobre o aluguel do apto onde moram, do parto da esposa e dos cuidados com as filhas. Confirma também o que dizem dos suecos: que eles bebem mto mto. Talvez fugir do frio, do cinza do céu e do distanciamento humano provocado pela neve nos longos invernos escandinavos.
Quando voltei ao Brasil comecei a ler A Ilha da Infância mas abandonei ainda no inicio por ser muito focado na vida de um grupo de garotos e nas relações entre eles. Sem o humor de A Guerra dos Botões, de Luis Pergaud, mais intimista.
Mas é um grande escritor e ainda quero ler outros livros dele. Pensei em comprar Minha Luta mas depois da matéria sobre a ex-mulher em O Globo, resolvi ler o livro dela, Linda B Knausgard, chamado A Pequena Outubrista mas nao o encontrei no aplicativo da Apple.
4. William Faulkner - Tentei ler O Som e a Furia e Luz em Agosto e desisti talvez pelo fato de que não tenho nenhuma simpatia pela cultura americana. Tenho muito dificuldade em ler qualquer autor americano. Excessão para S.Fitzgerald e Hermingway.
Apesar de Faulkner ser um escritor brilhante, não conseguir terminar nenhum dos seus livros que comecei a ler nesta pandemia.
5. Giovanni Boccaccio - Decamerão. Resolvi ler porque se passava durante a peste negra em Firence, no séc. XIV e pelo filme do Pasolini baseado em alguns contos do livro. As histórias são contadas por um grupo de jovens reunidos em um castelo durante a peste.
6. Salman Rushdie - Oriente, Ocidente. Conheci o escritor em uma Flip, em Paraty e sua figura é muita simpática. Apesar disto, só hoje peguei um livro dele para ler. Acho que não era o momento certo porque a leitura não me seduziu ou eu não consegui entendê-lo. Preciso voltar ao livro ou mesmo tentar outra obra dele.
Estou lendo:
7. Ayelet Gundar-Groshen - Uma Noite Markovitch
8. Sergio Buarque de Holanda - O Homem Cordial
9. Proust - Em Busca do Tempo Perdido
Pretendo ler:
9. Charli Hebdo - Carta aos Escroques da Islamofobia que fazem o Jogo dos Racistas
10. Ailton Krenak - Ideias para Adiar o Fim do Mundo