MUITO AJUDA QUEM NÃO ATRAPALHA
O Estado de S. Paulo de 19 de
fevereiro de 2019
Não tendo condição técnica e
administrativa para substituir Bebianno a tempo e a hora, Jair Bolsonaro deixa
o Brasil ser governado por seus filhos.
Não tem a menor importância,
para o País, o desfecho da crise envolvendo o ministro da Secretaria-Geral da Presidência,
Gustavo Bebianno. Sem qualquer predicado que o tornasse especialmente relevante
para o processo de tomada de decisões do governo, sua permanência ou não no
Ministério de Jair Bolsonaro só interessava de fato aos filhos do presidente,
publicamente empenhados em escolher os ministros e governar no lugar do pai. Já
o presidente Bolsonaro, seja porque é despreparado para exercer o cargo para o
qual foi eleito, seja porque não consegue impor limites aos filhos, seja por
uma combinação dessas duas características, revela-se incapaz de colocar ordem
na casa e concentrar energias naquilo que é realmente necessário para o País.
Assim, não tendo o presidente a
necessária condição técnica e administrativa para substituir Bebianno a tempo e
a hora, e muito menos coragem para enquadrar seus meninos, comete o pecado
capital de deixar o Brasil ser governado por um quadrunvirato.
E fez isso às vésperas do
início da tramitação de projetos de extrema relevância para o conjunto dos
brasileiros, como a reforma da Previdência e o plano de segurança pública,
perdendo-se o governo em futricas e picuinhas palacianas, cujo poder de causar
confusão e desgaste é multiplicado pela onipresença da criançada.
Foi pelas redes sociais que a
crise envolvendo Bebianno atingiu seu ápice. Pelo Twitter, Carlos Bolsonaro, um
dos filhos do presidente, chamou Bebianno de “mentiroso”, no que foi endossado
pelo pai. Nada nesse episódio lembra remotamente algo parecido com o respeito à
institucionalidade que se exige de quem ocupa o Palácio do Planalto. Tal
comportamento pode até excitar os militantes bolsonaristas nas redes, mas
desgasta profundamente a imagem de um governo cujo presidente prometeu, em seu
discurso de posse, “hierarquia, respeito, ordem e progresso”, mas até agora só
protagonizou confusões e patuscadas.
Felizmente, nem todos no
governo compartilham com Bolsonaro sua profunda falta de reverência pela
instituição presidencial, comprovada não apenas pelo modo desleixado como se
apresentou numa reunião ministerial, de chinelos e camisa falsificada de time
de futebol, mas sobretudo por permitir que seus filhos atuem como se ministros
plenipotenciários fossem. Há assessores que estão genuinamente empenhados em
fazer o governo funcionar, tentando dar à administração uma feição minimamente
sólida. No Congresso também há parlamentares que se comprometeram a fazer
avançar as reformas, mesmo com o desgaste político que o tema suscita.
A rigor, pode-se dizer que a
pauta mais importante do governo está avançando não por méritos do presidente
Bolsonaro, mas a despeito dele. Enquanto o chefe de governo se permite perder
precioso tempo com os devaneios de poder dele e dos filhos, inclusive com
fantasiosas conexões internacionais para a inclusão do Brasil num movimento
“antiglobalista”, alguns ministros buscam tocar o barco, sem ter, contudo, a
menor certeza se o “capitão” da embarcação sabe para onde pretende ir.
Antes tudo isso fosse método, e
não apenas o amadorismo irresponsável tão característico do baixo clero, de
onde saíram o presidente Bolsonaro e seu fanático entorno. Está ficando cada
vez mais claro, porém, que Bolsonaro, em razão de seus limites mais que
evidentes, não tem mesmo a menor ideia do que é ser presidente e do que dele se
espera num momento tão grave como este.
Desnorteado, governando ao
sabor da gritaria nas redes sociais, o presidente deixou de construir uma
articulação organizada no Congresso. Seu partido é um amontoado de novatos que
se elegeram pegando carona em seu nome; os líderes que escolheu para negociar
apoio dos parlamentares são igualmente inexperientes – um deles chegou a
convocar uma reunião de líderes partidários na Câmara à qual ninguém
compareceu; por fim, mas não menos importante, nem mesmo Bolsonaro parece
convencido da necessidade de uma profunda reforma na Previdência, dado que
passou a vida inteira como parlamentar a boicotar mudanças nas aposentadorias.
Seria ingênuo acreditar que
Bolsonaro, de uma hora para outra, passará a se comportar como presidente e
assumirá as responsabilidades de governo. Mais realista é torcer para que ele,
pelo menos, pare de atrapalhar.
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