quinta-feira, 25 de agosto de 2016

MUITO BARULHO POR NADA

Estava há seis meses em Londres e a saudade do país começava a apertar quando, um dia, ouvi um grupo falando português e me aproximei. Eram turistas, uma mãe com duas filhas adolescentes que viajavam pela Europa. No meio da conversa a mãe conta que antes, em um restaurante falavam e riam muito alto e todos olhavam com inveja (?) - porque, acrescentou: esta alegria só o brasileiro tem. Tive vontade de perguntar porque ela tinha tanta certeza de que estavam com inveja e não reprovando?
Lembrei deste fato ao ler que a imprensa internacional têm criticado o comportamento barulhento da torcida brasileira nos estádios pois, assim como as turistas de Londres, os torcedores brasileiros parecem confundir barulho com demonstrações de alegria. Penso que este comportamento deve-se ao nosso “Complexo de Vira Lata” - termo usado por Nelson Rodrigues que define nosso sentimento de inferioridade - que faz com que precisemos desta visibilidade.
Para  Sergio Buarque de Holanda, interpretamos os “tapinhas nas costas” como afabilidade quando fazemos isto porque gostamos de mostrar intimidade e somos avessos à formalidades. Na França aprendi que é preciso sempre dizer bon jour, quando se entra em um estabelecimento qualquer e, au revoir ao despedir-se e receberá como resposta um grande sorriso. Mas, caso não siga estas pequenas regrinhas, poderá achar que os franceses não são muito simpáticos.
Lembro também outra ocasião, em Amsterdan quando caminhava na rua com um amigo peruano e este comentou que todos ali tinham cara de feliz. Respondi que certamente haviam motivos de sobra afinal, era um país maravilhoso, onde todos eram educados e respeitosos uns com os outros.
Ao contrário dos holandeses, nós enfrentamos um transporte coletivo de péssima qualidade, repartições públicas ineficientes e, com frequência, nos deparamos com pessoas criticando tudo: a violência urbana, a corrupção, etc. Bem diferente do estereótipo do brasileiro cordial, nem sempre somos bem humorados ou mesmo educados nas nossas relações sociais. 
Acho que um pouco mais de formalidade não nos faria mal. Mas, não só acreditamos que somos um povo alegre como, também queremos ter certeza que é assim que somos vistos lá fora. E a maneira que encontramos é fazendo muito barulho – MUITO BARULHO POR NADA.

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