Texto publicado no jornal Diário Catarinense de 28 de abril de 2016
sábado, 30 de abril de 2016
sábado, 23 de abril de 2016
O QUARTO DE JACK
Há algum tempo um filme não me impactava tanto, ou melhor, não me fazia chorar tanto - chorei o filme todo. Sim, sou muito chorona. A emoção deve-se também ao fato de que é uma história real, ocorrida em 2008, na Áustria onde um pai mantém a filha encarcerada no porão da sua casa, durante anos. Historia que acompanhei pelos jornais.
Mas, apesar de ser uma história muito chocante ela foi contada com leveza e extrema sensibilidade. A autora do romance-reportagem, Emma Donoghue foi também a roteirista. Daí sua qualidade ser mais literária que cinematográfica. Roteirista e diretor tinham em mãos uma história muito forte mas conseguiram contá-la sem sentimentalismo e, principalmente com muita inteligência. Com certeza deve ter sido um grande desafio.
Ela é contada sob a ótica de uma criança que, no final, já morando com os avós, pede para voltar ao quarto onde ficou trancado até ser libertado aos 5 anos, numa tentativa de entender a diferença entre seu mundo atual e aquele que, na sua cabeça, se resumia o mundo - aquelas 4 paredes.
Quando diz que aquele quarto é menor do que aquele que tinha na memória, acrescenta que a diferença está no fato da porta estar ou não fechada.
A autora consegue, no meio de tanta dor, colocar poesia mostrando como uma simples folha flanando no ar, deixa esta criança tão deslumbrada a ponto de quase esquecer que está ali para pedir ajuda para que ele e a mãe.
Produção Canada e Irlanda do diretor Lenny Abrahamson, de 2010.
Mas, apesar de ser uma história muito chocante ela foi contada com leveza e extrema sensibilidade. A autora do romance-reportagem, Emma Donoghue foi também a roteirista. Daí sua qualidade ser mais literária que cinematográfica. Roteirista e diretor tinham em mãos uma história muito forte mas conseguiram contá-la sem sentimentalismo e, principalmente com muita inteligência. Com certeza deve ter sido um grande desafio.
Ela é contada sob a ótica de uma criança que, no final, já morando com os avós, pede para voltar ao quarto onde ficou trancado até ser libertado aos 5 anos, numa tentativa de entender a diferença entre seu mundo atual e aquele que, na sua cabeça, se resumia o mundo - aquelas 4 paredes.
Quando diz que aquele quarto é menor do que aquele que tinha na memória, acrescenta que a diferença está no fato da porta estar ou não fechada.
A autora consegue, no meio de tanta dor, colocar poesia mostrando como uma simples folha flanando no ar, deixa esta criança tão deslumbrada a ponto de quase esquecer que está ali para pedir ajuda para que ele e a mãe.
Produção Canada e Irlanda do diretor Lenny Abrahamson, de 2010.
sexta-feira, 1 de abril de 2016
CONDOMÍNIOS
Em um condomínio, o Espaço Privado é aquele que me pertence por direito de escritura e, o Espaço Comum é aquele que pertence a todos, indistintamente. Sendo assim, além do meu apartamento, também uma fração da piscina, dos jardins, dos moveis e utensílios do prédio me pertencem. O que não significa que possa levar para casa o faqueiro, como fez nosso ex, quando saiu do Palácio do Alvorada, ou estragar uma cadeira e não pagar o seu conserto.
Segundo o filósofo Arthur Giannetti, em "Vícios Privados e Benefícios Públicos", não é porque um bem é público que não é de ninguém e eu posso me apropriar dele, ou não necessite cuidar da sua preservação.
O mesmo se dá no caso dos espaços de uso comum de um condomínio* - o fato de ser de uso comum, não significa que eu não seja responsável por eles, e não só deva cuidar deles ou mesmo comunicar se algo for danificado ou, mesmo, alertar a pessoa que o estiver usando de maneira indevida. Isto porque considero que estes espaços são uma extensão da minha casa e devo cuidar deles tanto quanto.
E este é o ponto onde gostaria de chegar: a participação de cada um no cuidado dos espaços de uso comum. Quando cheguei aqui, na primeira reunião de condomínio que fui disse que caso alguém esquecesse de juntar o cocô do seu cachorro, no Pet Place, eu o faria - e muita gente ficou escandalizada - e, não só juntaria como, se soubesse quem é o dono do cachorro, pediria a ele que dá próxima vez não esquecesse.
Também, se tivesse um vizinho barulhento - o que graças a Deus não é o meu caso - eu bateria na sua porta e, da maneira mais educada possível, pediria que evitasse fazer muito barulho.
No entanto, tenho observado que está não é a opinião dos demais moradores. O que mais ouço é: "para isto tem um síndico que, por sinal, ganha muito bem!".
Eu diria: " e para isto também tem um zelador!". E para que serve um zelador senão para cuidar do bom funcionamento do condomínio, consertar o que precisa ser consertado, etc, etc? Porem, quando uma cadeira da piscina quebrou, o que ouvi de um morador foi: "precisamos (!!) reclamar para o síndico".
Assim como pagamos ao síndico para administrar o condomínio, também pagamos ao zelador para que mantenha tudo em bom funcionamento. No entanto, faz um um bom tempo que um guarda-sol precisa ser levado para o conserto. Pergunto: porque o zelador não liga para a empresa e pede que venha buscá-lo para consertar? Porque ninguém pediu, nem mesmo o síndico solicitou ao zelador que o fizesse.
E aí chegamos em outra questão: não somente nós não demandamos ao zelador mais atenção com o condomínio, como também o síndico não delega a ele mais autonomia.
E a cobrança recai toda ela em cima do síndico, que quer dar conta de tudo sozinho.
A verdade é que vivemos em uma sociedade paternalista e nos habituamos a mais completa dependência em relação ao "pai" - que pode estar representado na figura do chefe da empresa ou mesmo na do síndico do condomínio. À ele ("pai") cabe proteger-nos e, se possível, resolver tudo por nós.
A consequência disso é que não sabemos tomar decisões que exijam uma participação e um posicionamento pessoal mais efetivo e optamos pela omissão. Por outro lado, gostamos, e muito, de nos queixarmos, isto porque esse Outro "pai" sempre será aquele que nunca vai preencher todas as nossas carências frustrando, assim, nossas expectativas.
(*) excluído os espaços laterais as sacadas do 3o andar, que não é de uso comum ou mesmo, privativo, mas sim de uso restrito.
Segundo o filósofo Arthur Giannetti, em "Vícios Privados e Benefícios Públicos", não é porque um bem é público que não é de ninguém e eu posso me apropriar dele, ou não necessite cuidar da sua preservação.
O mesmo se dá no caso dos espaços de uso comum de um condomínio* - o fato de ser de uso comum, não significa que eu não seja responsável por eles, e não só deva cuidar deles ou mesmo comunicar se algo for danificado ou, mesmo, alertar a pessoa que o estiver usando de maneira indevida. Isto porque considero que estes espaços são uma extensão da minha casa e devo cuidar deles tanto quanto.
E este é o ponto onde gostaria de chegar: a participação de cada um no cuidado dos espaços de uso comum. Quando cheguei aqui, na primeira reunião de condomínio que fui disse que caso alguém esquecesse de juntar o cocô do seu cachorro, no Pet Place, eu o faria - e muita gente ficou escandalizada - e, não só juntaria como, se soubesse quem é o dono do cachorro, pediria a ele que dá próxima vez não esquecesse.
Também, se tivesse um vizinho barulhento - o que graças a Deus não é o meu caso - eu bateria na sua porta e, da maneira mais educada possível, pediria que evitasse fazer muito barulho.
No entanto, tenho observado que está não é a opinião dos demais moradores. O que mais ouço é: "para isto tem um síndico que, por sinal, ganha muito bem!".
Eu diria: " e para isto também tem um zelador!". E para que serve um zelador senão para cuidar do bom funcionamento do condomínio, consertar o que precisa ser consertado, etc, etc? Porem, quando uma cadeira da piscina quebrou, o que ouvi de um morador foi: "precisamos (!!) reclamar para o síndico".
Assim como pagamos ao síndico para administrar o condomínio, também pagamos ao zelador para que mantenha tudo em bom funcionamento. No entanto, faz um um bom tempo que um guarda-sol precisa ser levado para o conserto. Pergunto: porque o zelador não liga para a empresa e pede que venha buscá-lo para consertar? Porque ninguém pediu, nem mesmo o síndico solicitou ao zelador que o fizesse.
E aí chegamos em outra questão: não somente nós não demandamos ao zelador mais atenção com o condomínio, como também o síndico não delega a ele mais autonomia.
E a cobrança recai toda ela em cima do síndico, que quer dar conta de tudo sozinho.
A verdade é que vivemos em uma sociedade paternalista e nos habituamos a mais completa dependência em relação ao "pai" - que pode estar representado na figura do chefe da empresa ou mesmo na do síndico do condomínio. À ele ("pai") cabe proteger-nos e, se possível, resolver tudo por nós.
A consequência disso é que não sabemos tomar decisões que exijam uma participação e um posicionamento pessoal mais efetivo e optamos pela omissão. Por outro lado, gostamos, e muito, de nos queixarmos, isto porque esse Outro "pai" sempre será aquele que nunca vai preencher todas as nossas carências frustrando, assim, nossas expectativas.
(*) excluído os espaços laterais as sacadas do 3o andar, que não é de uso comum ou mesmo, privativo, mas sim de uso restrito.
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