segunda-feira, 1 de junho de 2015

REFLEXÕES QUE FAÇO A PARTIR DAS MINHAS EXPERIÊNCIAS ALÉM MAR

PARTE 1 - TRISTES TRÓPICOS
Passeava com um amigo peruano pelas ruas de Paris qdo ouvi dele: aqui todos tem cara de feliz. Olhei-o, surpresa com a afirmação - afinal, ouvira a vida toda que os brasileiros são os mais alegres e cordiais do planeta. Como se me tirassem um troféu. 
Na verdade é um mito este do brasileiro cordial, alegre. Ele é mal é humorado, encrenqueiro, assim como é também os portugueses. Os brasileiros tem a desculpa da crise econômica, do trânsito infernal, dos serviços públicos de péssima qualidade, etc. Não é caso dos lusitanos, que vivem em uma cidade super tranquila, organizada, onde tudo funciona bem.
Confundimos nosso temperamento latino, expansivo, com cordialidade, gentileza e educação. Sergio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil" fala que Seria engano supor que essas virtudes possam significar "boas maneiras", civilidade. Nossa forma de convívio social é o contrário da polidez, mas ilude na aparência.

O brasileiro não é sociável, ele interage muito pouco com a cidade e as pessoas e não o faz também porque quase não há espaços públicos para o seu lazer e este se dá quase sempre dentro do seu círculo familiar, do seu ambiente doméstico. O que é também parte da cultura que herdamos dos portugueses, voltada para a casa.
Em viagem pela Europa descobri como a vida (com excessão dos ibéricos) é voltada para a rua, para os espaços públicos. E existem inúmeros locais de lazer: no inverno eles têm as pistas de patinação, as piscinas térmicas, os museus, os salões de dança, etc.; e, no verão tem o ciclismo, os concertos ao ar livre, os pic-nic nos seus parques maravilhosos e bem cuidados - todos  públicos e, portanto, acessíveis a todos.

Buarque diz também  (...) onde predomina ainda a família do tipo patriarcal [Brasil e países
emergentes] tende a ser precária a formação e evolução da sociedade. (...) Âmbitos familiares excessivamente estreitos e exigentes circunscrevem demasiado os horizontes do indivíduo dentro da paisagem domestica (...) havendo necessidade de uma revisão por vezes radical dos interesses,  valores, sentimentos, atitudes e crenças adquiridas no convívio da família. (...). A função da rua é separar o indivíduo da comunidade domestica, a liberta-lo das "virtudes familiares".

E o brasileiro cada vez mais se fecha dentro de muros. O psicanalista Christian Dunker no seu recente livro"Mal-estar, Sofrimento e Sintoma: uma Psicopatologia do Brasil entre Muros" publicado pela Boitempo Editora, unindo teoria social e psicanálise conclui que a privatização do espaço público sob a forma de condomínio, com seus regulamentos, muros, câmeras, portarias,  transforma o sonho de consumo do brasileiro, elevado ao paradigma de forma de vida segura, no imaginário nacional, a uma condominização do sintoma.
Mas o muro só produz monstros com seu objetivo de controle de todo tipo de mal estar, nos
impedindo de reconhecer  a aspiração liberdade presente em toda formação de sintoma.
Vivemos a era da cultura do medo. O sociólogo americano Barry Glasser, em seu livro "Cultura do Medo" diz estamos vivendo em tempos muito mais seguros, de forma geral, do que vivíamos no passado, na maioria dos lugares. (entretanto) O nível de medo do crime em uma população não se assemelha as reais taxas de crime. (...) a maioria das pessoas nunca teve experiência direta com a violência. [a causa esta em que] grupos e indivíduos que promovem o medo e o panico em seu próprio beneficio. Parte da mídia extrai audiência da espetacularização da violência.

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