terça-feira, 13 de maio de 2014

RESOLVENDOS CONFLITOS

O brasileiro adora criticar tudo e todos, desde que não seja ele o objeto da crítica.  E esta será sempre rebatida com mal humor. Herrança portuguesa, dirá a atriz e escritora Maitê Proença. Norberto Elias, sociólogo alemão, no seu livro “O Processo Civilizador” relata que durante o século XVIII, nos salões da aristocracia a sátira, as frases de múltiplos sentidos e os elegantes jogos com as palavras eram considerados de bom tom. Mas, na nossa cultura, a crítica ou o simples fato de discordar de alguém, é visto como falta de educação. Como consequência, não aprendemos a debater ideias e, menos ainda, a lidar com a oposição a elas. 
Uma das frases mais ouvidas da depois do incidente na UFSC foi: "se tivessem dialogado   não teria ocorrido o confronto". Também já ouvi muito: " 'cai' fora porque não queria brigar". E ocorre porque não nos ensinaram a usar o diálogo e a negociação para resolvermos situações de conflito. 
Ao contrário de Rousseau que dizia que o homem nasce bom e é a sociedade que o degenera, Freud afirma que é a civilização que molda o homem impondo limites aos seus impulsos agressivos. Contardo Calligaris vai além ao dizer que “(...) é a falência  do  simbólico que produz a violência", ou seja, é a falência da Lei (representação simbólica das regras da sociedade) que produz a violência. Quando um pai estaciona o carro em cima da calçada ele esta dizendo ao filho que a Lei não precisa ser respeitada tem valor algum. Também Getúlio Vargas quando dizia: para os inimigos a Lei e para os amigos tudo estava dizendo que ela não tem valor algum. Também quando a classe política, a quem caberia dar o exemplo, coloca seus interesses pessoais acima das Leis.  
Só quando esta deixar de ser uma palavra vazia, sem um significado maior conquistaremos uma sociedade verdadeiramente democrática. 
E só quando aprendermos a valorizar o diálogo e o confronto físico der lugar ao confronto de idéias. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

SOBRE FILMES 12



O PALÁCIO FRANCÊS (Quai D'Orsay) - Dir. Bertrand Tavernier, França, 2013.
Recém formado na Escola Nacional de Administração, Arthur Vlaminck é chamado para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores à serviço do ambicioso ministro Alexandre Taillard. Arthur será responsável por elaborar os discursos do ministro, mas logo percebe que em meio a golpes políticos e vaidades pessoais, esta tarefa não será nada fácil.Super, magnifique, parfait !!!

Ok, talvez não seja o maior filme do mundo, mas é o tipo de filme que amo porque os diálogos são inteligentes, embora nem sempre fáceis de acompanhar, é um filme extremamente ágil, foi comparado a um vaudeville moderno pela Variety. Porque é uma sátira saborosa sobre os bastidores do poder na "côrte" francesa atual e uma brilhante adaptação da história em quadrinhos de Antonin Baudry baseada na sua experiência pessoal como secretário de Dominique de Villepin, quando ministro das Relações Exteriores da França (mais tarde foi primeiro-ministro).

Em 2003 D.Villepin fez um discurso na ONU onde se opôs fortemente à invasão do Iraque. Para a Variety "... é um homem em constante movimento, que se move através do próprio Ministério provocando estrondo - qualquer coisa que não seja pregado será pego em seu vento de cauda. O personagem sai do quadro para, em seguida, quase que instantaneamente, re-entrar a partir do oposto e cada abertura de uma porta é acompanhado por um assobio- vendaval." Tavernier consegue que a energia explosiva do ator - seus gritos exuberantes de "camarade," seu solilóquio sobre os benefícios do marcador de texto, apesar do exagero, não se torne caricatural. "Responsabilidade. Unidade. Eficiência" é a máxima de Taillard" e Arthur acaba percebendo que há astúcia por traz do jogo de cena de Taillard. Outro personagem excelente é também do ator Niels Arestrup que faz o papel do responsável por apagar incêndios durante a crise no Iraque (Lousdemistan).

Tavernier filma em locações reais (incluindo o Conselho de Segurança da ONU), misturando farsa e realidade. O ministério é mostrado como um labirinto quase infinito de longos corredores dourados que se abrem para grandes salas palacianas. E o nome Quai D'Orsay deve-se ao local, na margem esquerda do Sena.