quinta-feira, 29 de agosto de 2013

FLORIANOPOLIS PARA PESSOAS


As cidades devem pressionar os urbanistas e os arquitetos a reforçam as áreas de pedestres como uma política urbana integrada para desenvolver cidades vivas, seguras, sustentável e saudáveis.
Jan Gehl

Depois de uma semana de chuva hoje finalmente saiu o sol e pude pegar minha câmera fotográfica e me dirigir ao centro da cidade. Vou, finalmente, colocar em prática o projeto de escrever no meu blog sobre as calçadas do centro de Florianópolis.
Como toda grande cidade também aqui se anda muito a pé no centro - são pessoas que vão para o trabalho, para o consultório do médico, para as compras, etc. E, como o trânsito de pedestres é mais intenso nas Ruas Esteves Jr. (no espaço entre o Tribunal do Trabalho e a Rua Vidal Ramos), Jerônimo Coelho e Osmar Cunha foi para lá que me dirigi munida da minha Nikon, sem importar-me com o que poderiam estar pensando daquela mulher maluca fotografando calçadas. Ou talvez nem prestassem muita atenção: a maioria passava grudada nos seus celulares, muito rápidas, sem olhar para os lados.

Rua Tenente Silveira - FLORIANÓPOLIS


Rua Nereu Ramos, FLORIANÓPOLIS

As ruas se tornaram impessoais e as pessoas anônimas. Não são mais lugares de encontro, de convivência, são lugares nenhum, como abserva Jane Jacobs em “Morte e Vida de Grandes Cidades” (1961), a bíblia dos urbanistas. Vai dizer que “A feição urbana foi desfigurada a ponto de todos os lugares se parecerem com qualquer lugar, resultando em Lugar Algum. (...) (Em função dos automóveis) as ruas são destruídas e transformadas em espaços imprecisos, sem significados (...). Os pontos de referências são aniquilados ou tão deslocados de seu contexto na vida urbana que se tornam trivialidades irrelevantes.” O aumento do tráfico de automóveis e a falta de políticas públicas voltadas ao pedestre estão acabando com a vida nas cidades (...)."

Rua Osmar Cunha - FLORIANÓPOLIS

Hoje, quando se fala em mobilidade urbana esquece-se que mobilidade não pode ser só para os carros, que precisamos pensar também em mobilidade para as pessoas e que as calçadas são os órgãos vitais de uma cidade. Também o arquiteto Dinamarquês, Jan Gehl, em “Cidades para Pessoas” da Ed. Perspectiva, fala que “...uma cidade se torna viva sempre q as pessoas sintam-se convidadas a caminhar, pedalar ou permanecer nos espaços da cidade. (...) e reforçar a função social do espaço da cidade como local de encontro (...) contribui (...) para uma sociedade democrática e aberta.”
Dei-me conta do absurdo que são nossas calçadas depois de morar em Nice e viajar por diversos países da Europa e poder sentir o que é andar com conforto e segurança, sem pressa.

Place Masséna - NICE, FR


Av. Médecin - NICE


Transporte Coletivo - NICE


Promenade des Anglais - NICE

Promenade des Anglais - NICE


Pl. Garibaldi - NICE


Hôtel Dieu, Île de La Cité - PARIS

Jd de Luxembourg - PARIS

Banlieues - PARIS, França


emigrantes nos banlieues parisiense


                                                                                                             Beatriz Arruda











































quarta-feira, 21 de agosto de 2013

OS DOIS LADOS DA MESMA MOEDA: O PRÓDIGO E O AVARENTO

As questões relativas ao dinheiro estão sempre relacionadas a circulação do desejo. No caso do avarento, ele não converte o dinheiro em objetos de desejo, o dinheiro em si é o objeto do seu desejo; enquanto que o pródigo, ao contrário, parece impossibilitado de guardar dinheiro, o dinheiro se converte em objetos e, por sua vez, “desaparece”. O oposto acontece com o avarento que quer transformar tudo em dinheiro.
Mas acumular dinheiro sem outro desejo que o de aumentar sua quantidade é não somente perverter todas as trocas sociais e subtrair dos desejos sua circulação, visto é aquilo que vivifica as relações sociais.
Tanto no caso da avareza e como na prodigalidade, estas questões estão relacionadas às ligações amorosas originárias. O apego ao dinheiro do avarento refere-se a uma recusa ao amor ou a presença de algo que o impossibilita. Enquanto que o perdulário usa o dinheiro para receber amor. Ele não quer adquirir objetos, mas sim amigos - como o faz Timão, o mecenas em “Timão de Atenas”, de Shakespeare. Para a psicanálise, ele possui uma inibição em sua capacidade para amar, e “dá presentes para não precisar oferecer seu próprio ser”. Ele se sente amado pelo que tem e não pelo que é (se eu tiver um apartamento bonito você vai me amar mais). Parece haver uma confusão entre ser e ter nesse tipo de caráter. Para ele, ninguém pode ser amado senão pelo que tem. Ser equivale ao ter.
No caso do avarento há dificuldade em aceitar a troca amorosa entre as pessoas: ele deseja não desejar, é regido pelo princípio da realidade e pela necessidade. O avarento é alguém que teve uma infância afetivamente pobre e o dinheiro que acumula é apenas um símbolo do afeto que precisava e não recebeu. O avarento trata o outro tal como foi tratado em suas origens (é geralmente incapaz de dar alguma coisa, e se e quando o faz, submete o outro a juros extorsivos). Tende a ser sádico com as pessoas próximas e escolhe o autoerotismo como defesa.
A prodigalidade tem fonte semelhante à da avareza. O avarento trata o outro e a si mesmo como foi tratado, o pródigo trata o outro, e a si mesmo, como gostaria de ter sido tratado. De qualquer forma, tanto o perdulário quanto o avarento reproduzem, em eterna repetição, a situação originária que viveram.
A prodigalidade parece ser uma tentativa de apaziguamento de um Outro odiento; supondo que teve pais que o odiaram inconscientemente, o ódio que sente por eles permanece inconsciente e uma formação reativa fará com que este se transforme em altruísmo. Boa parte dessa atividade libidinal está ligada a fantasias inconscientes de agressão e ódio.
O desejo que o avarento sente em acumular dinheiro parece estar relacionado ao controle de uma angústia proveniente de fantasias inconscientes de destruição do ego.
Como Harpagão, o personagem de Moliére em “O Avarento”, ele repete seu passado e, ao invés de fazer algo para mudar, age com os outros de tal forma que leva-os a mesma rejeição que sofreu na infância.
Comparar esse par de opostos mais que nunca mostra como a oposição significa a mesma coisa no inconsciente: ambos estão tomados pela compulsão à repetição, um tenta recusar o desejo, o outro tenta satisfazer todos eles.

Beatriz

(texto retirado da obra “Avareza e Perdularismo” de Fábio Roberto Rodrigues Belo e Lúcio Roberto Marzagão)