O pai acusado de abusar de duas filhas durante vinte anos na cidade de Rio Negrinho era, Ele mesmo, a lei dentro da sua casa (o déspota ou o “pai da horda primitiva” de Freud em Totem e Tabu) e não, como seria desejado, aquele que representa a Lei, entendida como aquela que foi criada para ordenar as ações dos indivíduos de acordo com os princípios da sociedade e que deve ser seguida por todos, compulsoriamente.
Viviane Bevilacqua, na sua crônica do DC do dia 17 deste mês, fala sobre a perplexidade dos leitores ante estes fatos. Entre outros, cita o leitor Renato, que escreveu: "... As meninas terem medo é uma coisa, mas a mãe, o que fez nestes 20 anos? ...". Gostaria também de chamar a atenção para este detalhe: era dever desta mãe proteger as filhas, portanto, é necessário que a Lei incida sobre esta mãe também. Entendam-me, não estou defendendo que vá para a cadeia ou mesmo que sofra qualquer tipo de pena. Cabe ao juiz decidir se ela se omitiu ou se foi impedida de qualquer ação e, neste caso, inocenta-la. O que digo é que é preciso que a Lei se inscreva nesta família e que neste mundo sem Lei ela se faça presente.
Embora tenha sido usada a palavra reclusão em nenhum momento foi dito que viviam em prisão domiciliar, que não havia contato desta mãe com pessoas fora do circulo familiar. Penso que, mais do que tudo, foi por estar subjugada, não a lei do Direito e da Justiça, mas a lei despótica do marido, que ela se calou. E, excluí-la da letra da Lei significa dizer Lei é uma palavra vazia portanto, incapaz de por um limite a este pai.
Tempos atrás fui convidada para fazer um trabalho no interior do Estado e precisei entrevistar algumas mães que teriam direito a um auxílio do governo e, bastante chocada, ouvi de uma delas que o marido abusava da filha e justificava: "ele diz que não cria filha para dar aos outros..." (SIC). A palavra daquele homem era absoluta e à ela e as pessoas próximas só cabia acatar
Para Lévi-strauss é através da proibição do Incesto que o homem faz a passagem do estado primitivo para o de cultura e é a não inserção do sujeito no registro simbólico da Lei que faz com que surjam patologias como a do pai de Rio Negrinho.